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Dialogos das Grandezas do Brasil

“Quando os diversos haveres são permutados immediatamente á medida da superabundancia e da necessidade, existe a circulação natural, e todo povo começa a sua carreira economica pela carreira naturalista. Della são particularidades caracteristicas:

  1. — Circulação de haveres, lenta, geralmente localizada, extremamente irregular, por isso muito pouca divisão de trabalho;
  2. — Falta de capitaes, porque fallecem meios para poupar e assim falta o impulso para a formação de capitaes;
  3. — Completa dependencia da natureza, apathia quanto no futuro, oscillação constante entre a superabundancia e a penuria;
  4. — Falta a classe de capitalistas; mesmo depois de definidas as differenças de classe, só ficam em frente uns dos outros como factores unicos da producção os possuidores do solo e os trabalhadores;
  5. — Só a propriedade de terras dá poder e consideração; o trabalhador, que nada possúe della, depende inteiramente do trabalho e fica adscripto á gleba, pela qual tem de prestar serviços forçados e pagar impostos naturalisticos; o Estado remunera o serviço pela concessão de terrenos; forma-se o Estado feudal; —
  6. — A coacção do trabalhador, a improbabilidade de melhorar de condição difficulta todo progresso consideravel; por isso vigora a maior estabilidade.”[1]

A falta de capitaes restringia muito as manifestações da vida collectiva: não havia fontes, nem pontes nem estradas. As igrejas, as casas do Conselho, as cadeas eram feitas pelo Governo, ou com dinheiro vindo de além-mar, ou com impostos cobrados desapiedadamente. Para as casas e concertos de diversas obras não se podiam dispensar os subsidios do erario. Só as Casas de Misericordia deviam-se exclusivamente ou quasi á iniciativa particular, incitada talvez por motivos egoistas mais ainda que por altruismo. As sédes de capitanias, mesmo as mais prosperas, eram lugarejos insignificantes; a gente abastada possuia ahi predios, mas só os occupava no tempo das festas; lojistas, officiaes, tinham de accumular officios para viver com certa folga.


  1. J. Conrad — Nationale Ekonomie, Jena, 1898.
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