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Introdução

Acima deste rebanho, sem terra e sem liberdade, seguiam-se os Portuguezes de nascimento ou de origem, sem terras, porém livres, vaqueiros, feitores, mestres de assucar, officiaes mecanicos, vivendo de seus salarios ou do feitio de obras encommendadas.

Vinham depois, já donos de terrenos, os criadores de gado vaccum. Seu numero era exiguo, exigia a importancia de sua classe. O territorio colonizado limitava-se quasi á zona da mata, onde ogado não prospera facilmente e cumpria defender os cannaviaes e outras plantações de seus ataques. Medidas defensivas tomaramse mais tarde, ou já começavam a ser tomadas; mas o desenvolvimento deste ramo, destinado a assumir tão vastas proporções ainda no decurso daquelle seculo, deve-se sobretudo ao afastamento do gado para longe da ourela litoreanea, evitando a mata, procurando os campos, mais tarde certas catingas menos invias, separando a lavoura do que com alguma lisonja se poderia chamar industria criadora.

Os lavradores de menor cabedal, ou terras menos ferazes, cultivavam mantimentos: milho, arroz, mandióca. Dos dois primeiros não faziam grande consumo as capitanias, — São Paulo era excepção quanto ao milho. No preparo da mandioca usavam de grande roda movida a mão para reduzi-la á massa, de prensa para enxuga-la e extrahir a tapióca; a farinha cozia-se em alguidares ou tachos, — talvez no Rio de Janeiro, onde muito tempo preponderou esta producção e este commercio, empregassem logo grandes formos. Com tachos só se podia cozer pouca farinha de cada vez; por isso é natural que a safra não se colhesse toda numa estação como agora, porém durasse o anno inteiro. No tempo de Pero de Magalhães de Gandavo parece que se fazia farinha diariamente, a maneira de pão hoje em dia nas cidades mais povoadas. O alqueire, duas vezes e meia maior que o de Portugal, custava trezentos, duzentos e cincoenta réis, ás vezes menos no principio do seculo XVII.

É provavel que fossem lavradores destes os que plantavam algodão, vendido a 2$000 a arroba, depois de descaroçado no machinismo rudimentar da machina, encontrado ainda agora no interior e descripto pelos viajantes europeus vindos depois da trans-

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