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argumento subtil. O autor era portuguez; a leitura cuidadosa o attesta a cada passo e o proprio Brandonio o confirma explicitamente. Interrogado por que não secundou as experiencias de plantação de trigo, responde: “Porque se me communica tambem o mal da negligencia dos naturaes da terra.” Se fosse natural da terra, a resposta seria dada nestes termos?
Era portuguez e do Sul de Portugal, ou pelo menos lá passára muito tempo. Só assim se explica a importancia que attribúe a “alguma restinga de terra que então (no tempo das navegações carthaginezas) continuava com uma ilhota situada na costa do Algarve, a que chamamos de Pecegueiro, na qual paragem por costumarem a continuar os atuns que por alli passam a desovar dentro no estreito, se tomam muitos hoje em dia”. Teria reparado em cousas tão somenos um simples viajante?
Era homem de instrucção: conhecia o latim, a lingua literaria e scientifica da época e lêra os livros representativos da sciencía coéva: Aristoteles, Dioscorides, Vatablo, Juntino; sabia a historia, a geographia, a producção de Portugal e de suas colonias, e dispunha de intelligencia extremamente clara, cuja força se manifesta na precisão com que trata dos objectos, como por exemplo a polvora, o assucar, a farinha de mandióca, o papel; no modo por que subordina os factos mais diversos a categorias simples, como quando reduz os moradores do Brasil a cinco condições de gente, dos modos de adquirir fortuna a seis; distribúe a vida animal pelos elementos, desfia a inutilidade do commercio da India e dispõe as arvores silvestres em hortas e jardins (fim do Dialogo quarto).
Não era um espirito simplesmente contemplativo, occupava-o olado pratico, a applicação possivel. A larga navegabilidade do Amazonas suscita a idéa de aproveita-la para as communicações com o Perú; a existencia de aves rapineiras lembra a caça de altemaria; mesmo a secreção mephitica da jaguatataca antolha-se aproveitavel na ordem militar; fazia ou mandava fazer experiencias por conta propria, preparou anil para mostrar que a terra podia dar do melhor, fez examinar em Portugal uma especie de madeira, que lhe pareceu propria ao preparo da tinta de escrever.
Como seus contemporaneos, tinha uma veia de credulidade,