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Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!
Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes? Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte calculo apresentado pelo estatistico Pitcairn, que dividindo o numero das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e cinco homens e uma fracção.
Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.
Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata, narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.