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DA FRANÇA AO JAPÃO

altas regiões decidirem dos destinos de seu paiz. Esta tradição legendaria nos mostra com clareza que a fórma theocratica do governo subsistio até 1868, quando a revolução veio senão, então tornar o Japão um paiz constitucional pelo menos fazel-o pôr em movimento todas as suas forças, e de um salto sahir do estado de barbaria relativo, em que se achava, á um gráo de civilisação bem apreciavel.

Antes de fallarmos do Japão moderno, será indispensavel para accompanharmos o seu progresso, lançarmos a vista sobre sua historia a partir da epocha em que se soube de sua existencia na Europa.

Alguns escriptores hollandezes, levados por um sentimento de patriotismo mal entendido, negão aos portuguezes a gloria de terem sido os primeiros europeos que pisarão o solo japonez; outros, respeitando a verdade, ajuntão que esta gloria foi obra do acaso, e por isso, que o facto da descoberta do Japão apenas apresenta sob este ponto de vista um interesse secundario.

A estes, basta lembrarmos que não foi o acaso que fez dos antigos portuguezes aventurosos navegantes e perfeitos guerreiros de então; aos primeiros, pediremos permissão para pôr em duvida seus titulos de fieis chronistas.

E, se algum facto pode ser verificado mais facilmente o da descoberta do Japão pelos portuguezes o será tambem, e este é assumpto de brilhantes paginas escriptas pelo seu proprio descobridor Fernão Mendes Pinto e pelo continuador das decadas da Asia de João de Barros, Diogo do Couto.

Os proprios annaes da Companhia das Indias Orientaes contão que aos portuguezes se deve a noticia d’este rico paiz do Oriente, com o qual, durante dois seculos, ella foi a unica que d’elle auferio lucros immensos.

A narração de Fernão Mendes Pinto parece em alguns pontos inverosimil, porém não é difficil conhecer-se que a falta de precisão, é antes filha de uma imaginação ardente e enthusiastica pelos seus proprios feitos, do que de calculada má fé ou de habituada mentira.