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MARQUES DE CARVALHO

com uma ventarola de pennas vermelhas, ao lado da senhora moça, que espreitava para fóra, por um dos pequenos postigos lateraes. A seus pés, dormitava o cão Mururé, com um pedaço de lingua escarlate caída para o lado esquerdo, entre os dentes meio visiveis.

O cheiro acre da marezia saturava a tolda. Periquitos gritavam nos mattagaes da ilha proxima; cantos sonoros de passaros chegavam até á embarcação, n’uma suavidade docemente melancholica, que fazia sorrir de alegre ternura os dois viajantes.

— Que bonita paizagem, Antonio!

— É certo! Razão tinha eu dizendo-te que gostarias immenso da viagem.

— Quando chegamos ao sitio?

— Ás 9 horas, isto é, d’aqui a tres ou quatro.

— É pena chegarmos tão cedo!

— Dizes bem: vamos tão contentes....

E beijaram-se n’um impeto de prazer extraordinario.

O caboclo, que, por acaso estava a olhar para elles desde alguns momentos, voltou o rosto, embaraçado, sentindo queimar-lhe as tostadas faces um ardor de sangue equatorial em ebulição. Puxou do cachimbo demorada fumaça, para tranquillisar-se.

Os outros, os dois recem-casados, — porque Antonio e Luiza eram noivos: tinham-se matrimoniado quinze dias antes, — experimentavam, debaixo da tolda, uma sensação