Página:Contos paraenses (1889).pdf/103

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
CONTOS PARAENSES
97

velho quinquagenario d’elevada riqueza materialisada em appetitosas centenas de contos de réis, depositados nos principaes bancos do Brazil.

Comprehende agora, depois do que tenho vindo a dizer-te, emquanto a azulada fumaça d’este charuto caprichosamente descreve espiraes no espaço, como poderia amal-a o esposo, vendo-a tão nova, a seu lado, toda entregue a seu amor, — desde os timidos beijos assustadiços repentinamente dados, ás vezes, no vão de qualquer janella dos aposentos desertos de enfadonhas testemunhas, até ao completo desnuamento arrepiado e perfumoso, muito encolhido e cálido, que apresentava-lhe na mysteriosa liberdade pacifica da recatada alcôva, alta noite, com a sua elevada estatura de lyrio a erguer-se, entre neves de rendas, diffundindo aromas que sabia embriagadores, irresistiveis.

Uma fascinação, aquella dupla existencia de accendrado amor. Mutuos caprichos eram satisfeitos com afan, com orgulho, como quem dedica-se a todos os sacrificios para conquistar uma estima á força de constantes provas de louvavel desinteresse.

Confesso não ter ainda visto a repetição d’aquella invejavel existencia d’affectuoso enlevo, — elle no declinar da vida, ella em toda a maravilhosa florescencia dos seus vinte e cinco annos. Passava horas inteiras a contemplal-os, absorto na admiração d’essa