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sendo seguida pelo Sol, ou no crepusculo vespertino sendo sepultada pela Noite, eram representados no drama religioso do culto, nas tradições sociaes ou naçionaes da Epopêa, e nas conversas e lendas domesticas dos Contos e Enigmas. A vida pastoral era transportada para os phenomenos metereologicos, e as nuvens eram as Vaccas, o sol era o Pastor, o vento o Rakchasa ou ladrão que as escondia na caverna, finalmente o céo era a grande Arvore da vida que cobria o mundo. Foram estes mythos, que persistiram na civilisação dos diversos ramos áricos, o thema commum que se transformou em narrativas sem sentido religioso, mas com o interesse das aventuras dos contos populares.

A maior parte d’esses contos póde ser reduzida ao typo geral em que os personagens se identificam com os mythos do Sol, da Aurora e da Noite, da Primavera e do Inverno. Applicar este processo a contos de origem kuschita ou mongoloide, ou ainda a tradições de proveniencia semitica, é um erro de exegese, que impossibilita o desenvolvimento scientifico da Novellistica como complemento da evolução mythica.

O polytheismo semita tem outro caracter, a que chamamos antropopathico. Gaston Paris reconhecendo a differença que existe entre os dois systemas de religiões, escreve: «As grandes planicies em que se desenvolveram as primeiras civilisações semitas não apresentam os espectaculos grandiosos e deslumbrantes das pastagens montanhosas onde a divindade se revelava nas tempestades; a serenidade das noites, a transparencia do ár, a ausencia de linhas que attrahissem o olhar, tudo contribuia para transportar para o céo os olhos dos pastores que conduziam os seus rebanhos por estes immensos prados. Segundo a tradição da antiguidade, foram os Chaldeus os primeiros astronomos; e antes que tivessem a ideia de observar scientificamente os astros, adoraram o seu explendor. Eu quero sómente constatar, que as re-