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112. TUDO ANDAREMOS

Um marido desalmado batia na mulher, que estando já tão acostumada áquelle malhadeiro, tomava tudo em desconto dos seus peccados. De uma vez o marido tinha-lhe dado muitas pancadas na cabeça, na cara e no peito, e a desgraçada exclamava:

— Homem! Bate-me antes nas costas.

— Deixa estar, que tudo andaremos.

(Porto.)




113. A MULHER QUE CEGOU O MARIDO

Uma mulher andava desencaminhada, e foi consultar uma visinha para achar modo de cegar o marido. Este veiu a sabel-o, e disse á visinha que lhe désse como receita infallivel, que dando a comer gallinha cosida ao marido, elle iria cegando pouco a pouco sem dar por isso.

Assim fez a mulher desencaminhada; ao primeiro pretexto disse ao marido que era bom comer gallinha cosida.

— Já que é remedio, comerei gallinha.

Depois de ter comido, o homem fingiu que estava um pouco com a vista turva. A mulher continuou a dar-lhe mais gallinha, e quando o homem já estava enjoado de comer tantas gallinhas é que se fingiu cego de todo. A mulher estava certa de que o marido era cego, e deu entrada ao amante; mas quando elles estavam mais seguros, é que o marido cobrou a vista, desancando-os como quem malha em centeio verde.

(Airão.)