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legalmente "aproprietariadas" nada disso é obstaculo á solercia do grilleiro. Elle, ao partir para o sertão, deixou em casa, na gaveta, os escrupulos de consciencia. Vem firme, vem "feito" como um gavião. Opéra as maiores falcatrúas; falsifica firmas, papeis, sellos; falsifica rios e montanhas; falsifica arvores e marcos; falsifica juízes e cartorios; falsifica o fiel da balança de Themis [1]; falsifica o céo, a terra e as aguas; falsifica Deus e o Diabo. Mas vence. E por arte d՚essa obra-prima de malabarismo, espoliando posseiros ou donos, firmados na gazúa da lei, os grilleiros expellem das terras, num estupendo parigato [2], todos os barbas ralas [3] que alli vivejam parasitariamente, tentando resistir ao arranque da civilização.
Divididas as glebas em lotes, vendem-nas os grilleiros à legião de colonos que os seguem como urubús pelo cheiro da carniça. E o grillo, si foi bem feito, é inexpugnavel e provoca admiração, e si foi mal feito fracassa e é apupado pelos embahidos.
Num sertão modorrento, quando a presença de um advogado ou agrimensor esperta os velhos moradores, a uma voz elles murmuram — e si não o murmuram, sentem-no lá dentro das tripas:
— O nosso tempo acabou-se...
E acaba, de feito. Acaba o marasmo da terra porque o grilleiro é o precursor da Onda Verde. O seu cri-cri annuncia a approximação do carro de assalto.