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A penetração do café nas terras novas escreve capitulos curiosissimos, oscillantes entre o tragico e o comico.
Faz-se por bem ou por mal — quasi sempre por mal.
O primeiro passo é a creação da propriedade de titulo liquido. Sem esta base, não póde surgir a fazenda, que é uma empreza de vulto, onde se interessam fortes capitaes. A propriedade crêa-se hoje, como outróra, pela conquista do mais forte, pela espoliação levada a cabo pelo mais audacioso, pelo mais despido de escrupulos.
Um homem timido e perfcitamente moral, chega ao sertão e não tópa brecha onde pôr pé. Encontra-o deserto, mas apossado. Não vê gente, mas esbarra donos. Se quer comprar ninguem lhe vende. Ninguem lhe arrenda. Ninguem lhe aluga. Os detentores, zelosos de uma posse tradicional de pais a filhos, não querem vizinhos que lhes perturbem a paz do latifundio. E o homem moral volta para trás, desanimado.
Mas surge o grilleiro [1] e tudo se transforma. Terras paradas, terras inexpugnaveis á cultura, que velhos barbaças detêm aos milheiros de alqueires para tirar d՚ellas um prato de feijão e uns porquinhos de céva, e que vêm vindo assim de avós a netos, e que permaneceríam assim toda a vida; terras devolutas, que a inercia do Estado conserva a monte [2], sem saber por quê nem para quê; terras legitimamente,