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Que folego é mister!

Que amplitude de visão, que dureza d՚alma, que sobrehumana coragem para vêr, sentir e contar a historia da Onda Verde que engole e digere as florestas virgens!

Os aspectos antigos — o eito de negros tocado a bacalháo [1], e os aspectos modernos — a bravura do italiano, encardido de oxydo de ferro [2]. As hostes de sertanejos, os mais rijos do Brasil, que descem, pelo inverno, dos socavões da Bahia, de machado ás costas e uma furia de destruição nos musculos. O duello entre esses heróes de dentes apontados a faca [3] e a selva bruta. O machado que canta no rósco das perobas. A foice que risca a miuçalha vegetal. A queimada, depois... E depois o sertanejo que volta á querencia [4], com o dinheiro no lenço, e pago — pago e repago da faina com o espectaculo fulgurante da queimada que leva impresso na retina para todo o sempre.

Elles destróem, mas não sabem construir. Entra em scena, para construir, o colono e começa o drama da formação: quatro annos de enxada no pulso, de corrida paciente atrás de um matto que "corre atrás da gente". A victoria, afinal, a florada nivea — quando não, como em 1918, uma florada prematura de neve...

O assumpto arrasta. Voltemos atrás.

  1. Instrumento de castigo usado no tempo da escravidão.
  2. O rubro da terra-roxa vem da presença do oxydo de ferro.
  3. Nos sertões bahianos é uso dos sertanejos tornar os dentes pontudos, o que conseguem lascando-os a faca.
  4. Lugar do nascimento, ou de criação.