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PORQUE LOPES DE CASOU

não sei porque casou já que não serve nem para trazer da cidade um pão de sabão de cinza para a burra da mulher que fica em casa a se matar de trabalho, e tá, tá tá. Não imaginas a minha vida, Lopes...

Lopes, arrepiado ante as confidencías do amigo, alvitrou uma solução desesperada.

— Em teu caso, Lucas, eu recorria aos meios extremos, ao divorcio, á bolinha...

— Caçôa, caçôa... Eu tambem caçoava...

— Mas, Lucas, estás a exaggerar. Dou de barato que seja assim. Mas ha compensações. Os filhos, por exemplo, as alegrias sãs da paternidade...

— Os filhos... Têm muita graça o primeiro, o segundo e ainda o terceiro. Depois, do quarto ao decimo segundo... que pestezinhas infernaes! Destroem tudo, põem a casa immunda, vivem num corropio de peraltagens capaz de endoidecer um santo. Não sei si os filhos dos outros são assim, mas os meus batem todos os records. Ha um, o senhor Lúlú, qué prenuncia um novo Attila. Diverte-se quebrando, furando, judiando, escangalhando o que encontra. Hontem procurei um livro — livro de contas, socega! — e fui encontral-o no quintal, dentro d'uma poça d'agua, á guiza de barragem de dique. Só em louça quebrada esse patife dá-me um rombo de quarenta mil réis por mez. E não é elle só. O Eduardinho tem a mania de encafuar os talheres que pilha nos buracos dos ratos, nas frestas do assoalho. Outro especializou-se em quebrar dentes ao garfos. Chegamos á perfeição de ter em casa apenas um com quatro dentes! Já as facas são uma dentadura completa. Quem é o dentista? O sr. Lúlú. Apparece uma cadeira com tres pernas. Quem foi o carpinteiro? O sr. Lúlú.

A Ignezita tem a bóssa da costura. Está praticando no córte... Em pilhando a tesoura, esconde-se num canto e vae picando o que encontra. Ha dias recortou um corpinho no oleado da mesa, um oleado adquirido na vespera — e tão caro...

O Leandro é o homem da balistica. Vive com o papo da camisa cheio de padregrulhos e cascos de telha — «tentos», diz elle — e brinca de partir as vidraças dos vizinhos. Tem, para mal meu, mão certa como o Guilherme Tell.

O Lucas, esse chora. Chora doze horas por dia, átóa, por brincadeira. E' o rei da manha, mas daquellas manhas interminaveis que deixam os nervos da gente em carne viva. O Bentinho, que é torto, o coitado já fuma pontas de cigarro e collecciona nomes feios apanhados na rua. O mais velho foge de casa pela janella e entra de madrugada. Anda-me sorumbatico, com umas perebas suspeitas. O Juvenal...

— Pára um bocado, Lucas. Deixa—me tomar folego e fazer uma observação. Sendo assim como dizes, travessos, insubordinados, a culpa é só tua. E' que lhes não dás á devida disciplina, não os corriges, não lhes torces o pepino no tempo propicio, homem!

— Será, mas que queres? Não posso, não tenho energia. Sou uma tapera, um homem arrazado que me fiz fatalista para ter uma philosophia que me dê paz á consciencia. Bem me accusa ella de inepcia e frouxidão extrema... A's vezes vem-me impetos de reagir, entrar em casa de guatambú em punho e ir deslombando ás cegas a esca-