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Cavallinhos

(FRAGMEMTO DE UM ROMANCE GORADO)


Saleta em casa de D, Didi.
Lauro, seu sobrinho, está só,
fumando, na cadeira de balanço.
E' dia de procissão. Noitinha.
Elza é a filha casada de D.
Didi, Juquinha é o filho de
Elza. O mais o leitor entenderá,
se ler e não fôr pêco.


Elza entrou da rua como uma papoulà suada, e repuxando com o dedo a gola da sua blusa de seda carmezim, refrescava o pescoço afogueado com abanos freneticos de leque. Falou da procissão, que estivera linda — um povaréo, muitas palmas. Disse que nunca vira tanta gente na egreja; que nem se podia respirar, que estava assim! (e apinhava os dedos). Que a filha de Nha Vica fez um berreiro dos demonios, que não sabia porque levavam crianças á egreja. Depois, interpellou o primo:

— Porque não foi, Lauro?

— Eu... ganiu o primo, derreado na cadeira de balanço.

Não concluiu. Entrava dos fundos dona Didi. Elza beijou-lhe as mãos, abraçou-a.

— Porque não foi, Didi, aos cavallinhos, hontem? Esperei-a lá. Não imagina o que perdeu! A companhia é optima!

— Não pude, passei mal o dia — dôr de cabeça, visitas...

— Pois perdeu! Ha lá um menino que é um prodigio — pouco maior que o Juquinha, completamente desengonçado. Faz trabalhos pasmosos, que contando não se acredita! Pega nas duas perninhas, cruza-as na cabeça aqui na nuca e com as mãos pula como um sapo. Depois desengonça a cabeça e gyra com ella como se a tivesse presa por um barbante. Uma coisa extraordinaria! O sujeito do trapezio não trabalha mal. Achei muita graça no Juquinha — era a primeira vez que elle ia ao circo: «de que é que você gostou mais, meu filho?» perguntei.