Página:Casa de Pensão (1899).djvu/132

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
116
Aluizio Azevedo

informações; Amancio voltou-se logo para ella, solicitamente, e na febre de fallar de sua terra, começou, sem reparar que mentia, a pintar coisas extraordinarias. O Maranhão, segundo o que elle dizia, era um viveiro de talentos; os gremios e os jornaes litterarios brotavam alli de toda parte; cada individuo representava um grammatico de pulso; as senhoras — illustradissimas; os homens — póços de instrucção; as crianças sahiam da escola bons poetas e prosadores.

Coqueiro affectava acompanhal-o n’aquelle enthusiasmo, mas ria-se por dentro. O outro lhe parecia cada vez mais tôlo.

Lucia perguntou si Amancio tinha algumas producções dos seus comprovincianos, que lhe pudesse emprestar. Elle prometteu que traria as que tivesse em casa. E recommendou Entre o céo e a terra de Flavio Reymar.

— Ha em sua provincia um poeta que eu adoro, disse ella, cortando em pedacinhos uma fatia de carne assada que tinha no prato.

— O Franco de Sá? perguntou o maranhense.

— Não, refiro-me ao Dias Carneiro.

Amancio sentio um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nunca em sua vida ouvíra fallar de similhante nome.

— É, disse entretanto, — É um grande poeta!

— Enorme! corrigio Lucia, levando á boca uma garfada. — Enorme! Conhece aquella poesia d’elle, o...

Novo calafrio, d’esta vez, porém, acompanhado de suores. E não lhe acudia um titulo para apresentar, um titulo qualquer, ainda que não fosse verdadeiro.

— Ora, como é mesmo? insistia a senhora. — Tenho o nome debaixo da lingua!

E, voltando-se com superioridade para o marido: — Como se chama aquella poesia, que está no album de capa escura, escripta á tinta azul?