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CARAMURU

XV.


Algum chegando aos miſeros, que a arêa
O mar arroja extinctos, nota o vulto;
Ora o tenta deſpir, e ora recea
Não ſeja aſtucia, com que o aſſalte occulto.
Outros do Jacaré tomando a idéa3
Temem que acorde com violento inſulto;
Ou que o ſomno fingindo os arrebate,
E entre as prezas crueis no fundo os mate.

XVI.


Mas vendo a Sancho, hum naufrago que eſpira,
Rota a cabeça n’huma penha aguda,
Que hia tremulo a erguer-ſe, e que cahira,
Que com voz laſtimoſa implora ajuda:
E vendo os olhos, que elle em branco vira;
Cadaverica a face, a boca muda,
Pela experiencia da commua sorte
Reconhecem tambem que aquillo he morte.

XVII.


Correm depois de crello ao paſto horrendo;
E retalhando o corpo em mil pedaços,
Vai cada hum famelico trazendo,
Qual hum pé, qual a máo, qual outro os braços:
Outros da crua carne hião comendo;
Tanto na infame gula erão devaſſos:
Taes ha, que as aſsão nos ardentes foſſos,
Alguns torrando eſtão na chamma os oſſos.

XVIII.