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Era d՚esses que, sendo a plantas conculcados,
Qual serpente, alça o collo e investe c՚o aggressor.
Por largas horas preso em laços intrincados,
Não era de extranhar vergasse á tanta dôr.
A terra aos olhos meus tornára-se invisivel.
Vi de nuvens no céu veloz revoluteio.
Pareceu-me ir á terra. A queda era impossivel,
Que me prendiam nós do mais cerrado enleio.
Tinha o cerebro em fogo a percutir-me o craneo,
Compresso o coração num torno de agonia.
Um momento pulsou; parando, subitaneo.
O céu — immensa roda — em cima se movia.
Quaes ebrios — ante mim as arvores nutaram;
Tenue luz vislumbrou-me aos olhos, de relance.
Nada mais vi, depois. Por ancias taes passaram
Os que tocam da vida ao derradeiro transe.
No tumulto infernal d՚aquella correria,
Em que a treva, ou mais leve ou densa, me affrontava,
Tentára recobrar do animo a energia;
E minha posição o esforço me frustrava.
Eu era semelhante ao triste, que naufraga,
E, agarrado a um pranchão, do mar a furia arrosta;
Agora submergido, agora á flor da vaga,
A cujo impulso vai em direcção da costa.
Deslumbrantes clarões, que o cerebro nos sulcam,
Que, mesmo olhos cerrando, os vê a mente esperta,
E incipiente febre em quem os nota inculcam:
— Tal a imagem, então, de minha vida incerta —.
Esse estado passou. Foi breve o soffrimento.
Veio, após, turbação, peior que a propria dôr.
Receio de sentil-a igual nesse momento,
Em que o marco da vida eu tenha de transpôr.
Antes de ao pó volver é força (ao que supponho)
Que ao mortal accommetta angustia, inda mais forte.
Que importa! Muita vez expuz, qual inda exponho,
Com arrojo, a cabeça á quasi certa morte.
Voltou-me o sentimento. Em que lugar estava?
Congelado, em torpor e grande aturdimento,
Dôr por dôr, sensação por sensação, tomava
Posse do proprio ser, por gradações, e lento.
Tive nova oppressão. O sangue, espesso e frio,
Subito, refluiu com violento impulso.
No ouvido me vibrou discorde murmurio;
De novo, o coração me estremeceu, convulso.
A vista recobrei nos véus de uma neblina.
Qual travéz de um crystal espesso as coisas via.
Um constellado ceu pintava me a retina;
E parecia ouvir o oceano, que estrugia.
Não sonhei. O corcel, fogoso, espantadiço,
N՚um rio se engolphou de maxiina braveza.
Em redor espumava a lympha em reboliço,
E ia levando além a sua correnteza;
O cavallo a nadar, de furia em paroxysmo,
Buscava a riba em frente — uns sitios não sabidos.
Aquelle inopinado e salutar baptismo
Deu-me elasticidade aos membros inanidos.
O peito do animal affronta e quebra a onda,
Que ao pescoço lhe sóbe. Impetuoso, avança;
Contra a lubrica praia, ás cegas, esbarronda.
Nella, porém, não vi lampejo de esperança.
Si tivera, até ahi, angustia e desalento
Enlutava o porvir terror, noite aborrida.
Não sei quanto durou a pausa do tormento,
Nem si era o sopro meu o folego da vida.
Fumegante o corcel, na bocca espuma branca,
Mudados crina e pêllo em jorros de gotteiras,
Vacillando nos pés, entésta co՚ a barranca
E consome em salval-a as forças derradeiras.
Chega ao cimo, afinal. A noite, pouco densa,
Descortinar deixava um plaino, que se espraia
Pelo horisonte, além, e d՚area tão extensa,
Que, si medil-a quer, o olhar cansa e desmaia.
Tal abysmo sem fundo o sonho nos figura.
Da lua, que nascia, ao pallido clarão,
Aqui pallidas manchas, alli a relva escura,
Via, em mixto confuso, a mosquear o chão.
Nessa plaga, porém, tão muda e tão soturna,
Nem signal lobriguei de choça —; ermo completo.
Nem vacillante luz de lampada nocturna,
— Estrella, que annuncia hospitaleiro tecto.
Si, qual por irrisão, eu visse da palude
Surgir um fogo fatuo, um trasgo zombeteiro,
Daria sua luz a meu soffrer, tão rude,
Naquella solidão consolo verdadeiro.
Inda sabendo, ao certo, o que era aquelle fogo,
A sua apparição eu, d՚alma, abençoára,
Pois no instante cruel de tão pungente afogo,
De humana habitação lembrança me acordára.
Continuou a andar, tardio, a frouxos passos,
O misero animal, outr՚ora tão robusto.
Espumante, abatido, arrasta os membros lassos
E a róta, em que voava, agora vence a custo.
De uma criança á mão seria dirigido.
Mas que me aproveitava o seu estado infirme?
Inda que houvesse, então, meus vinculos partido,
Podia eu forças ter de alçar-me e dirigir-me?
Para os nós desatar das solidas correias,
Que eram minha prisão, baldei a tentativa.
O arrocho, inda mais forte, entumeceu-me as veias;
Não houve allivio á dôr, que se tornou mais viva.
Sem lhe saber, ao certo, o ponto de parada,
Parecia-me finda a doida correria.
Illuminando os véus da fresca madrugada,
Vinha apontando o sol. Quão lento, que nascia!
Como que da manhã a bruma pardacenta,
Nos ares desdobrando o rórido lençol,
Adrêde, persistia, espessa, fria e lenta,
Recusando ceder o seu lugar ao sol.