Página:Byron-MazeppaLord.pdf/8

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
MAZEPPA
XI

 

Como de um vendaval levado sobre as azas,
O filho da Tartaria, em phrenesi, corria.
Longe tinham ficado as derradeiras casas;
Do horisonte em confins Varsovia se perdia.

Qual atravessa o ar um meteóro ardente,
Quando a luz boreal a nuvem fende e um rasto
Espalha de fuzis, tal, célere e fremente,
Galopava o corcel no steppe arido e vasto.

Deshabitada cha, esteril natureza,
Negra floresta ao fundo. Em rapida visão
Perpassava ante mim alguma fortaleza
Das que barreira põe á tartara invasão.

Fazia exactamente um anno, nessa data,
Tinham os spalis lutado na planura,
E no rubido chão de seus corceis a pata
Aniquilado havia os germens de verdura.

Era o cariz do ceu sombrio e pardacento;
A viração gemia em tão plangente voz,
Que eu respondêra, accorde, áquelle seu lamento
Si ai, ou prece, coubera em curso tão veloz.

Meu gelido suor da fronte ia cahindo
Do excitado corcel na crina hirta e revolta;
E elle, sempre em terror e colera nitrindo,
Proseguia, sem pausa, em seu correr, á solta.

Muitas vezes julguei que o impeto afrouxasse;
Em vão! Meu leve peso os rins não lhe peiava;
Era antes aguilhão, que os passos estugasse
Do animal, cuja força a colera dobrava.

Nitria, si eu tentava os membros doloridos
E tumidos soltar dos complicados nós.
Falei-lhe. Foi peior. Si bem que enfraquecidos,
Espantaram-n՚o mais os sons de minha voz.

Fez-lhe impressão de açoite o accento meu. Pulando.
Rasgava, como um raio, o safaro pragal,
Qual si aos ouvidos seus vibrasse, retroando,
Fragoroso clangor de trompa marcial.

Manando-me, abundante, o sangue das feridas,
Cerrava-me, inda mais, dos nós a forte rêde;
Tinha garganta e lingua, ardentes, resequidas,
Ao mais vivo queimôr de violenta sêde.

 

XII

 

A entrada da floresta estava já bem perto.
Em qualquer direcção, á massa de verdura
Limite não achava o meu olhar incerto;
Tal era a vastidão da intermina espessura.

Viam-se aqui, alli, arvores priscas. Nunca
Tufão, que da Siberia irrompe em bravos roncos,
Que despe á selva a coma e d՚ella o sólo junca,
Nem de leve abalou aquelles grossos troncos.

Rareavam, porém, taes arvores. Seus claros
Enchiam-nos de tojo uns viridentes brótos
Na exhibição vernal de seus enfeites raros,
Illesos, até alli, do outomno aos rijos nótos,

Que, ferindo de morte as folhas e os rebentos,
E mudando seu verde em rubra côr mortal,
Fazem-nos parecer cadaveres sangrentos,
No campo da batalha em funebre estendal,

Quando, após longa noite, em que bem forte néva,
Tão hirtas volve o gelo as frontes dos que jazem,
Que o corvo, alli buscando a sanguinosa ceva,
Não n՚as póde encetar (tão rigidas se fazem !)

Desconversavel ermo, em sarças abundante,
Em robres colossaes, pinheiros corpulentos,
Que, por ventura minha, uns d՚outros bem distantes,
Me evitavam ao corpo embates violentos.

Vergava ao peso meu, sem magoar-me, o tojo.
Eu soffreava a dôr. Das chagas sobre as bordas
O sangue congelára. E fôra ao chão, de rôjo,
A não tolher-me a queda o vinculo das cordas.

Na treita do cavallo, e quasi a dar-lhe tópe,
Lobos em alcatéa, a quem a fome instiga,
Vinham no prolongado, especial galope,
Que tira aos cães o ardor e o caçador fatiga.

Iam-nos sempre após. Nem quando o sol nascera.
Nos deixaram a pista. Eu vi-os, bem visinhos,
A relva contornando e claro, percebêra
O seu leve pisar, á noite, nos maninhos.

O que eu não déra, então, por ver-me libertado,
De sabre ou chuço em punho, em meio á malta fera!
Si houvesse de morrer, por ella devorado,
Prazer de a desbastar, ao menos, me coubéra.

Quando o corcel partira, igual a um pé de vento,
Era desejo meu chegasse a seu destino.
Temia lhe faltasse agilidade e alento;
Em vão! Tinha o vigor de um alce montesino.

O furacão de neve, a resvalar de cima,
Quando, offuscante, céga e esmaga o camponez,
Que, fugindo ao perigo, á umbreira se approxima
Onde pisou, ha pouco, a derradeira vez,

Mais rapidez não tem dos ares na passagem
Que n՚aquelle correr, phantastico, sem treguas,
Esse ardego corcel, feroz, hyper-selvagem,
No atravessar o bosque, a devorar as leguas.

Mostra furor igual mimalho, a quem negada
A bonequinha foi; ou antes, a mulher,
Que, perante a rival, do amante melindrada,
Do capricho á mercê desaggravar-se quer.

 

XIII

 

Transposto o bosque foi. A tarde começara.
Posto corresse junho, o ar dava arrepio;
Ou nas veias, talvez o sangue me esfriára;
Que o longo soffrimento abate os de mais brio.

Eu não era, aliás, o que pareço agora.
Tendo o impeto em mim de uma caudal de inverno,
Mostrava, alvoroçado, o sentimento, embora,
Não definisse bem o seu motivo interno.

Mesmo cheio de horror e colera, sentindo
De profunda vingança o estimulo cruel,
Fome, frio, vergonha e males mil curtindo,
Amarrado, em nudez, aos tergos de um corcel,