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MAZEPPA

Raivoso estava o conde, eu d՚armas desprovido.
Estivesse, porém, forrado de armadura,
Contra essa gente hostil, em numero crescido,
Não pudera luctar naquella conjunctura.

Perto o solar ficava, a povoação distante,
Eu sem auxilio algum contar. Amanhecia.
Acreditei chegado o meu supremo instante,
E que a luz d՚outro sol não mais brilhar veria.

Rezei á Virgem Mãi e a uns santos... Quaes?... Que importa!?
E com resignação dispuz-me para a morte.
Do castello feudal eu fui levado á porta.
Nunca mais vi Thereza e nem lhe soube a sorte.

Para seu mau humor justificar, de sobra,
Bastava ao Palatino a recebida injuria.
Uma ideia, no entanto, a cólera llie dobra...
— A eiva em seus brazões de bastardia espuria.

Repugnava-lhe crêr que em seu antigo escudo
Ousasse alguem pôr quebra e deturpal-o assim.
Isto em quem aspirava á primazia em tudo;
Que impor-se a todos quer, e muito mais a mim.

Um pagem! Santo Deus!... Até parece incrivel!
Si um rei fosse, podia o esposo conformar-se...
Não consegui pintar o seu furor terrivel...
Mas os effeitos d՚elle em mim vão demonstrar-se.

 

IX

 

«Já! O cavallo aqui!» E veio, num momento!
Era um nobre animal, um tartaro da Ukrania.
Como que em si pintava a acção do pensamento,
Que, muito mais que tudo, é célere, instantanea.

De vespera apanhado, indomito, bravio;
Virgem de espóra e treio, as largas ventas incha;
Selvagem como o gamo, em mattas erradio,
Fumega, eriça a crina e, horripilado, rincha.

De raiva e medo espuma, oppondo resistencia
Tenaz ao que o segura. É vão seu grande esfôrço.
Trazem-m՚o. Muitas mãos me agarram, com violencia,
E em forte correame arrocham-me a seu dorso.

Soltam-n՚o, á discrição. Um vigoroso braço
De chicote lhe dá. Dispára, em continente.
«Avante!» Eil-o, impellido, a devorar o espaço,
Com rapidez, maior, que a tumida corrente.

 

X

 

«Hop! hop! Galopar!» O folego eu perdera;
Nem podía saber que norte ia levando.
Naquelle instante o sol, esplendido, rompera,
E o fogoso corsel, fugia, resfolgando.

O humano, ultimo som, que o vento me zunira,
Desde que do solar partimos, de arrancada,
A corja dos servis, á uma, o desferira,
Num tripudio de escarneo, em fera casquinada.

Logrei romper uns nós, que me retinham preso
Pela cabeça á crina; a meio o corpo ergui,
E contra a escrava grey, em justa raiva acceso,
Vociferei vingança, imprecações brami.

O estrepito, porém, dos cascos, que, velozes,
Tropeava o corcel, parece que, de todo,
Conseguiu abafar os sons de minhas vozes,
A volverem aos vis apôdo por apôdo.

Desforcei-me, depois. Agora, esse castello,
Que tão garboso foi, não passa de um destroço.
Caiu-lhe a torre, a ponte, o portico tão bello;
Não lhe resta uma trave e nem signal de fosso.

Nos campos em redor nenhum rebento nasce,
Excepto no lugar antigo do salão.
Ninguem, que essa extensão deserta atravessasse,
Diria ter havido alli um torreão.



Vi os seus paredões de fogo devorados;
Os tectos desabar com funebre estampido;
Vi, com torvo prazer, dos solhos abrazados
Como chuva, escorrer o chumbo derretido.

Contra meu braço ultriz não lhes serviu de abrigo
Do muro a solidez. Quando elles me arrojaram
Num relampago preso, ao maximo perigo,
Que julgavam de morte, ah! nunca suspeitaram

Que um dia, regressando, á frente de mesnada,
Dextro no manejar clavina, espada e lança,
Respondesse á incivil, forçada cavalgada;
Tirando do aggressor justissima vingança.

Triste gracejo foi prenderem-me a um ginete
E lançarem-n՚o, solto, em correria infrene.
Vinguei-me. D՚elles fiz, por minha vez, joguete
E no ajuste final fiquei mais do que indemne.

Tudo está no esperar. Não ha poder na terra,
Que resista ao constante esforço, paciente,
De quem, como um thesouro, a propria injuria encerra
Nos penetraes do peito e sempre a tem presente.