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MAZEPPA

Precedeu tal mudança o tempo, em que ao dominio
Da velhice quebrei. Podeis dar attestado
Que em forças e valor em mim não ha declinio;
Que a lucidez da mente hei sempre conservado.

Nem d՚outro modo, Sire, eu fora em vossa tropa
Um chefe, e nem me achára aqui, neste momento,
Velha historia a contar de um robre sob a copa,
Em que pesa o docel de umbroso firmamento.

Thereza... Não lhe pinto as formas e a figura.
Asiaticos tinha os olhos, como os tem
Cruzada geração gentil, que da mistura
Do sangue polonez e musulmão provém.

Olhos, que tintos são das trevas no negrume;
Que estampam d՚este ceu a carregada face,
Das pupillas vibrando embaciado lume,
Qual da lua o clarão, que, á meia noite, nasce;

Grandes, sempre de luz nadando em plena enchente,
Como que d՚essa luz se fundem no fulgor;
Metade languidez, metade chamma ardente,
Sendo, porém, na essencia, um puro e casto amor,

Revestem a expressão serena do que expira
Pela fé, a fitar, extasiado, o empyreo,
Qual si fosse volupia o fogo atróz da pyra
E ante-gosto celeste a fragoa do martyrio.

Semelhava-lhe a fronte um lago em claro estio,
Onde inflammado o sol os raios reverbéra,
Onde, timida a vaga abafa o murmurio,
Onde vem espelhar-se a tinta azul da esphera.

A fronte, os labios seus... Que mais dizer? Amei-a
E inda amo essa mulher. E todos os que são
Como eu, si amor lhes lança aos pulsos a cadeia,
Amam com energia e férvida paixão;

Amam, té no furor. Em seus ultimos annos,
Persegue-os, vaga, inane, a sombra do passado.
Tal Mazeppa hade ser, emquanto entre os humanos,
Fôr dos vivos no ról seu nome contemplado.

 

VI

 

Foi vel-a e suspirar... Um n՚outro o olhar cravamos.
Não falou; mas senti que fui correspondido.
Signaes, accentos ha, que vemos e escutamos,
Que ninguem definiu, mas tem alto sentido;

Scentelhas do eu pensante, involuntarias, vivas;
Mysterio a repousar do peito no recesso;
Linguagem singular de phrases expressivas,
Brotando, a seu pezar, do coração oppresso;

Anneis de ignea cadeia, unindo em doce affecto
Almas e corações, que um do outro ser ignoram;
Fio, cujo poder electrico, secreto,
Serve de conductor a chammas, que devoram.

Foi vel-a e suspirar. Occasiões diversas,
Falando-lhe, a paixão, á custo, soffreei!
Apresentado fui. Em sala, nas conversas,
Á minima suspeita occasião não dei.

Ardia por abrir-lhe o peito em desafogo;
Fraca, e tremula a voz nos labios me expirava.
Um dia, finalmente... Havia certo jogo,
Pueril distracção, que as horas enganava;

Era... Esqueci-lhe o nome... Entramos na partida
Por um facto... Qual foi?... Não sei dizel-o, ao certo.
Ella era o meu porvir, o sol de minha vida;
Queria vel-a, ouvil-a e d՚ella achar-me perto.

Eu, que a velava então, com vigilancia activa,
(Assim possa velar quem ora nos vigia!)
Pude verificar que estava pensativa
E ao jogo, á perda ou ganho, indifferente e fria.

Longas horas jogou, mostrando, bem patente,
De alli permanecer o tacito desejo,
Mas não para jogar. Passou-me pela mente
De clara intuição um subito lampejo.

De seu modo e semblante a calma impaciencia
Coragem me infundiu. Contendo-me nos gestos,
Mas derramando a phrase em doida incoherencia,
De insensata paixão rompi o dique aos éstos.

Insensivel não foi ao meu confuso appello,
(E ha de ouvir-me, outra vez, de modo favoravel).
Mostrou-me que não tinha um coração de gelo.
A recusa no amor é sempre revogavel.

 

VII

 

Amei e amado fui. Si, ao que se diz, nenhuma
Das fraquezas de amor, ó nobre rei, sabeis,
Convém que a minha historia encurte e que resuma
Lances, que (é de esperar,) de frivolos taxeis.

Coube a poucos, porém, a rara faculdade
De refrearem n՚alma o impulso das paixões;
Ou, como Deus mostrou em Vossa Magestade,
De reinarem em si e mais sobre nações.

Sou chefe, ou antes... fui... Regi da governança
O difficil timão com dextra cauta e firme;
Tropel d՚homens guiei ás lides, á matança...
Mas da vida no afan não soube dirigir-me.

Amor, que é dom do ceu, cahindo no exagero,
De ventura, que ha sido, em magoa degenera.
Era em ancias crueis, em vivo desespero,
Que eu, febril, numerava as horas de uma espéra.

O dia era sem paz, a noite não dormida ;
Só gozava a seu lado instantes de delicias.
Como a recordação melhor de minha vida,
Guardo sua affeição, seus mimos e caricias.

Da Ukrania abrira mão por ver-me, n՚este instante,
Pagem feliz de então, possuindo fina espada,
Dono do coração de tão formosa amante;
Na mocidade em flor, saúde... sem mais nada.

«Dobra a dita o mysterio». Eu penso bem diverso ;
O dito popular não tem justo motivo.
Quizera possuil-a á face do universo...
E tinha pejo até de meu amor furtivo.

 

VIII

 

Os que amam Argos têm. De breve tempo ao cabo,
Deram em nosso ninho. Ai ! Nessa occasião
Devêra mais cortez comnosco ser o diabo...
O diabo!!... Talvez o culpe sem razão.

Talvez autor do mal foi santo desastrado,
Que, d՚ocio longo farto, a bile extravasou.
Um grupo de espiões, bem proximo emboscado,
Tomou-nos, de improviso, e presos nos levou.