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O tartaro animal, felpudo, vigoroso,
Vencia em rapidez um furacão do outomno.
A um aceno acudia, attento e pressuroso
E orelhas aprumava, ouvindo a voz do dono.
Toldasse negra noite o azul do firmamento,
Fosse entre muitos mil occulto o cavalleiro,
O instincto lh՚o mostrára; ir-lhe-ia em seguimento,
Qual vai da mãi no encalço a cria do cordeiro.
Isto feito, Mazeppa estende o manto em terra,
Encosta ao robre a lança, e, próvido, examina
Si polvora bastante a cassoleta encerra,
Si não soffreu a pedra e o fecho da clavina;
Passa a mão na bainha e em copos de seu sabre;
Sonda si está bem preso e inteiro o cinturão.
Cauteloso, depois, do chão levanta e abre
O sacco, onde guardou mesquinha provisão,
E ao monarcha a offerece e ao sequito presente,
Sem formulas, que exige o ceremonial.
O real fugitivo aceita, sorridente,
Por gesto affirmativo, a refeição frugal.
Ostentando alegria, ausente de sua alma,
Finge que não succumbe ao marcial discrime;
E com segura voz, em attitude calma,
Dirige-se a Mazeppa o rei e assim se exprime:
«Entre os nossos, de peito e braço vigoroso,
Habeis no forrageio e em toda a marcia lida,
Ninguem ha como tu, Mazeppa valoroso,
De tão activa faina e lingua comedida.
Bucephalo, Alexandre acodem á memoria
Em ti, em teu ginete—o mais completo par;
Sobrepuja á da Scythia a tua immensa gloria,
Si é caso de passar, luctando, terra e mar.
E Mazeppa volveu: «Maldita a escola, aonde
A pericia ganhei de estribos e de arções»!
— «E por que, bravo chefe»? (O rei, prompto, responde)
Vivendo dos salões no pleno movimento,
Si foram para ti proficuas as lições?»
— «Temos muito que andar e muita escaramuça,
(Em que ha dez contra um por parte do inimigo)
Primeiro que os corceis, deixando a plaga russa,
Do Dnieper além encontrem bom pascigo.
E՚ longa a narrativa e impõe forçada véla.
Sire! Descanço deveis ao corpo fatigado.
Eu da escolta real serei a sentinella,
C՚o a vigilancia, propria ao mais fiel soldado».
— «Quero essa historia, sim! Talvez que possa dar-me
Somno, á que estou revel». Pois bem! Nessa esperança,
Doze lustros atraz, meu rei, vou remontar-me,
E os factos despertar, dormentes na lembrança.
Era... quando eu chegára ás vinte primaveras;
Casimiro reinava. Eu, desde a puberdade,
Me alistei pagem seu. Que rei! Sabio, de veras;
Mas pouco semelhante á Vossa Magestade.
Não foi conquistador; não deu esses combates,
Que reduzem um povo á condição de escravo.
Afóra de Varsovia os calidos debates,
Nada mais perturbou o seu repouso ignavo.
Não escapava, entanto, a crises dolorosas.
A՚s musas, á mulher paixão votava, céga.
Quanta vez, com desdem tratando as caprichosas,
Preferira luctar no accèso da refrega!
Mas... passava depressa aquella intensa furia.
Outro livro ia lêr, tomava outras amantes;
E, de novo, cedendo aos habitos da incuria,
Dava no seu palacio as festas mais brilhantes.
Varsovia, toda em peso, aos bailes lhe assistia.
Alli vinham porfiar as classes mais selectas;
Dos proceres a flor ao lado resplendia
Do Salomão polaco. O rei pelos poetas
Era chamado assim. Um delles, renitente,
(Pois não tinha pensão) teimava em lhe negar
A honrosa antonomasia e em satyra mordente
Disse que não sabia os reis lisonjear.
De farcistas um grupo, em justa, cultivava
As musas e em rimar vivia a exercitar-se.
Eu tambem editei uns versos, que assignava
« Thyrsis desesperado», (artistico disfarce).
Um Palatino havia, illustre de ascendencia,
Rico, qual mina rica, aurifera ou de sal;
E de fanta altivez (vertigem de insolencia!)
Que pretendia vir de origem divinal!
Ninguem, excepto o rei, de mais predicamento!
A՚ força de incubar brazões e cabedaes,
Chegou a acreditar que o ouro e o nascimento
Eram meritos seus, virtudes pessoaes.
D՚outro modo pensava a sua esposa amavel.
Contando lustros seis de menos que o marido,
Soffria do consorcio o jugo intoleravel
E anhelava por vel-o, em breve, sacudido.
Após crébro desejo e timida esperança
E lagrimas de adeus, sagradas á virtude,
Noites d՚ancia, em que a mente e o corpo não descança,
Depois de muito olhar, vibrado á juventude,
Vivendo dos salões no pleno movimento,
Em dansas e canções somente embevecida,
Ella estava á mercê do critico momento,
Em que a mulher mais fria, é, sem luctar, vencida,
E outorga, complacente, a seu querido esposo
Titulo, que é pra o ceu valente passaporte,
Do qual (celebre coisa!) é menos orgulhoso
Quem num quinhão maior o recebeu da Sorte.
Mancebo era eu, então, de varonil belleza,
Desculpai-me aos setenta a frivola jactancia !)
Ninguem (digo-o, bom som), do povo ou da nobreza,
Hombreava commigo em graças e elegancia.
Pullulava em meu seio a seiva exhuberante
Da força e bom humor, que é dom da mocidade.
Exprimia belleza e vida este semblante,
Que, hoje em dia, só diz tristeza e austeridade.
O tempo, a guerra, o afan dir-se-ia me apagaram
D՚alma na fronte a luz. Feições tão differentes
Tomei, tanto do rosto as linhas se alteraram,
Que hão de desconhecer-me amigos e parentes.