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AO DR. JOSÉ CARDOSO DE MOURA BRAZIL
 

A COMPLACENCIA DIVINA MANIFESTAÇÃO DA GRAÇA TRADUZ-SE NA BONDADE — REFLEXO DO CEU NA CREATURA E SUBLIME FORMA DA CARIDADE DO MUNDO. ⧫ ⧫ VÓS, MEU AMIGO, EM QUEM FULGURA, NO MAIS ALTO GRÁO, ESSE PRIVILEGIO DOS ELEITOS, PRELIBAES, ANTE O QUADRO DOS BENS, QUE HAVFIS PRODIGALISADO, O INEFFAVEL JUBILO, RESERVADO AOS QUE TRIUMPHARAM DA MORTE. ⧫ ⧫ SOU UM EXEMPLO VIVO DO EXERCICIO D՚ESSA MUNIFICENTE BONDADE. ⧫ ⧫ A CULMINANCIA SCIENTIFICA E PROFISSIONAL, QUE ATTINGISTES PELO ESFORÇO DO ESTUDO E DA OBSERVAÇÃO; Á SUPERIOR INTELLIGENCIA, AUXILIADA PELA FIRMEZA DE VOSSAS PERITAS MÃOS E Á VÓSSA DEDICADA ASSISTENCIA, POR MAIS DE QUATRO MEZES, DEVO A RESTITUIÇÃO DE MEUS OLHOS Á LUZ. ⧫ ⧫ CONSENTI, POIS, QUE NÃO VOS OBEDEÇA, ENCERRANDO-ME NO SILENCIO, QUE PUBLICAMENTE SE EXPANDA MINHA GRATIDÃO POR ESSES SERVIÇOS DE VALOR INESTIMAVEL, SOBREDOIRADOS PELA DELICADEZA, COM QUE OS PRESTASTES, DANDO A MAIS GENEROSA INTERPRETAÇÃO AO CITO, TUTE ET JUCUNDE DO PRINCIPE DOS ORADORES ROMANOS. ⧫ ⧫ JUNTAES, Ó WECKER BRAZILEIRO, AOS LOUROS DA SCIENCIA OS NÃO MENOS IMMARCESSIVEIS DE AGRICULTOR PROGRESSISTA. NÃO VOS TENDES POUPADO A SACRIFICIOS PARA CONVENCER OS NOSSOS FAZENDEIROS DE QUE A POLYCULTURA NO BRAZIL NÃO É UTOPIA. ⧫ ⧫ VÓS, QUE CONHECEIS, A FUNDO E POR EXPERIENCIA, A DESASTROSA CRISE DE NOSSA LAVOURA E OS REMEDIOS PARA DEBELAL-A, PODEIS, HOJE, QUE DE NOVO PRESIDIS Á SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA, REALISAR VOSSOS NOBRES INTUITOS, SI OS PODERES PUBLICOS VOS APPROVEITAREM A PATRIOTICA VOCAÇÃO, INCONTESTAVEL COMPETENCIA E MERITOS EXCEPCIONAES. ⧫ ⧫

 
RIO, 3 DE NOVEMBRO DE 1904.
BARÃO DE PARANAPIACABA.

 

MAZEPPA

 
( Lord Byron )
 
I

 

Ferira-se em Pultava a acerrima batalha,
Em que o sueco heróe revez cruel soffreu;
Pelo cruento chão cadaveres espalha
O exercito, que alli campanha extrema deu.

Gloria, regio poder, deidades inconstantes,
Como esses, de quem são os idolos impuros,
Seguiram do Autocráta as armas triumphantes
E os fortes de Moscow, de novo, estão seguros,

Em quanto não desponta o dia formidavel,
Que de mais alto nome e exercito mais forte
Deverá registrar, em anno memoravel,
Vergonhosa derrota e a mais infausta sorte.

Desbarato fatal ! Naufragio miserando!
Em tempo algum se viu abalo tão profundo!
Foi raio, que, de chofre, um homem fulminando,
Levou consternação e assombro a todo o mundo.

 

II

 

Tal da guerra o vaivem. Carlos Doze aprendia
A fugir. Sem parar, transpunha em seu cavallo
Campinas e caudaes. No sangue, que o tingia,
Era licito ver o seu cada vassallo.

Para cobrir-lhe a fuga, oh quanta mortandade!
Ninguem, a censurar essa ambição sem freio,
O vencido humilhou na hora, em que a verdade
Já do poder não tem o minimo receio.

Perde o rei o corcel. Gietta o seu lhe cede,
E entre inimigos vai morrer, prisioneiro.
Após longo galope, inutil, que despede,
Abate-se o corcel e cospe o cavalleiro.

Cumpre ao rei poise a fronte, exhausta de fadiga,
Das selvas no mais fundo, em solidões sombrias,
Ao continuo bradar das forças inimigas
E ao nocturno clarão, longinquo, dos vigias.

E é por descanso tal, por laurea tão sangrenta
Que, luctando, as nações riqueza e força exhaurem !

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Arrancam-n՚o ao torpor da quéda violenta,
Sem meios desprezar, que as forças lhe restaurem.

Rigidez da inacção lhe tolhe cada membro;
Das feridas á flór congela-se-lhe o sangue;
Aggrava-se-lhe a febre ao frio de novembro,
Recusando-lhe o somno á celha ardente e langue.

E, entanto, arcando o rei com tanta adversidade,
Supporta, nobremente, amargas provações;
Avassallando a dôr, domina-a c՚o a vontade,
Tal como praticava, outr՚ora, entre nações.

 

III

 

Tem alguns generaes (quão poucos)! a seu lado,
Resto de um só combate heroicos e ficis.
Triste e mudo, cada um, por terra está deitado
Ao pé de seu monarcha e em meio dos corceis.

Força é que, igual ao bruto, o homem, no perigo,
Co՚ as mesmas precisões, ás mesmas leis se dobre.

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Mazeppa, um dos fieis, procura seu abrigo
Sob um, d՚elle rival, robusto e velho robre.

O velho hetman da Ukrania, exemplo de coragem,
Da fadiga prescinde e, proximo, apparelha
A seu nobre ginete um leito de folhagem;
Almofaçavá-lhe a crina, alisa-lhe a cernella;

Do freio, do bridão, das cilhas o liberta;
Folga, vendo-o comer, sem repugnancia, o feno;
Pois era de temer lhe fosse ingrata a offerta
Da vegetal ração, molhada do sereno.

O ginete, que ao dono imita em galhardia,
Nunca fez cabedal de mantimento, ou leito;
Docil, bem que fogoso, á redea obedecia;
De nada se escusava, a tudo estava affeito.