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O rubor do astro-rei, só tarde, deu desmaio
Das estrellas no carro á luz, que d՚ellas flue.
Seródlo o sol vibrou em toda a força o raio
Da luz—dote do ceu—que o rei da luz possue.
Da fusca cerração nenhum signal já resta.
Em frente, em roda, após, só vi andurriaes.
Debalde transpuzera asperrima floresta,
Planicie accidentada e turbidas caudaes.
Alli mostra-se rica em vegetaes productos
A virgem natureza, a exuberar prodigios,
Mas de animado ser,—ou racionaes ou brutos—
Não ha presença alguma, e nem siquer vestigios.
Não accusava o chão indicios de trajecto,
Ou de humano labor. Na herva não se acoita
E nem vôa, a zumbir, o mais pequeno insecto;
Não acorda o silencio um passaro na moita.
O cavallo, arquejando, exhausto de cansaço,
Como que dos ilhaes quebrado, se rendia.
Tropego, inda marchou por um pequeno espaço.
Nós estavamos sós... Ao menos parecia.
Vi o pobre animal seguir, quasi de rasto...
Eis se me afigurou ao longe, um rincho ouvir.
Vinha d՚um pinheiral, sombrio, extenso e basto....
O vento era, talvez, nos ramos a zunir.
Grande cavallaria irrompe d՚essa matta;
Fórma-se em esquadrões e, lésta, se adianta.
Quero soltar um grito; a voz não se desata;
Sem aos labios chegar, expira na garganta.
Milhares de corceis, sem terem cavalleiros,
Nessa vasta planicie, ás soltas, sem receio,
Giram, caracollando, altivos e ligeiros,
Não tendo humana mão, que lhes imponha freio;
Milhares de corceis de fluctuante crina,
Caudas ferindo o ar e boccas, que das bridas
Inda virgens estão;— de amplissimas narinas,
Que não foram, jamais, de ferro comprimidas.
Não soffreram nos pés da ferradura o insulto,
Nem na ilharga o baldão de açoite, ou de acicate;
Livres, qual do oceano a vaga, que, em tumulto,
Uma pós outra vem e, alfim, na praia embate.
A equina multidão, cerrando-se em fileira,
Num fragoroso andar, que a trovoada imita,
Como para saudar, de fórma hospitaleira,
Quem enfermo chegou, p՚ra mim se precipita.
Coragem recobrando, á vista d՚essa tropa,
Debil, solta o corcel um languido nitrido;
Tardo passo aligeira; um pouco, inda, galopa,
E, minutos depois, no chão eil-o estendido.
Acaba de exhalar o seu extremo alento.
Tem vitreo, fixo o olhar, rigido o corpo. Ainda
Evapora do pêllo effluvio fumarento...
Sua excursão primeira e ultima está finda.
Chegam. Cahir em terra o companheiro viram.
Viram-me em fortes nós, que o sangue em coalho ensopa,
Preso ao dorso do irmão. Com ruido o ar aspiram;
De um lado a outro, o bando, em torno a mim galopa,
Volve a nós e se afasta, após breve intervallo;
Caracolla de novo e subito, de arranco,
Retrocede, a saltar. Parece dominal-o
Hirsuto, alto corcel, sem malha, ou pêllo branco.
Era o seu conductor. Relincham, espumando,
Os bravos animaes e, tendo visto um homem,
Por instinctivo impulso, afastam-se, ganhando
A galope, os pinhaes, que em sua brenha os somem.
Que desesperação! Permanecia preso
Ao corcél, cujo corpo em parte me opprimia.
Não sentia elle, agora, o meu ligeiro peso,
De que só disatando os nós o livraria,
Eis-nos, pois, lado a lado, — o morto e o moribundo.
Eu jazia, a luctar nas ancias da incerteza
Que inda o crástino sol viesse neste mundo
Minha fronte aclarar, sem tecto e sem defeza.
Do inicio ao fim do dia, assim me conservára,
Das horas a sentir o cargo doloroso,
Guardando do viver o quanto me bastára
Para imminente ver o meu final repouso.
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Chegára á essa cruel, final desesperança,
Em que o homem se affaz ao que mais formidavel
Se lhe affigura haver; pois já, sem esquivança,
Me conformava á morte — ao fim inevitavel;
Beneficio real, não menos precioso,
Por vir cedo de mais. E pomos diligencia
No afastal-o de nós, qual sendo insidioso
Laço, que só se evita á esforço de prudencia.
Muitas vezes pedido, em muitas o queremos;
Outras antecipado a espada o traz. Remedio
Para os males não é, nem mesmo quando extremos,
E, sob qualquer fórma, infunde horror e tedio.
No entanto (é singular!) os que da sorte eleitos,
Gozam em alto gráo, os sensuaes prazeres,
Conservam, ao morrer em seus dourados leitos,
Tanta paz, qual na choça os desherdados seres;