Página:Byron-Giaurpoema.pdf/9
Crear habitação, propria de Numes;
Paraizo, em que a mão munificente
Graças, encantos, derramára, a froixo,
Eis que a transforma mum deserto o homem!
Cego, vibrando a foice do exterminio,
Sua planta brutal esmaga as flôres,
Que não têm precisão de algum desvelo
Para viçarem nesse fertil sólo,
E, apenas, na dulcissima linguagem
Parecem implorar que as não destruam.
Estranha, sim ! A paz respira em tudo ;
Mas reina das paixões furia orgulhosa,
E sobre escombros de belleza tanta
Fundam imperio a crápula, a rapina.
Dirieis que os espiritos do inferno
Venceram os exercitos celestes
E que os herdeiros da infernal cohorte
Vão, livres, occupar do Empyreo o throno;
— Tanta magia encerra aquelle sólo,
Tão odiosos são os seus tyrannos !
Já contemplaste o rosto de um cadaver,
Quando inda corre o dia do trespasso ;
Dia que é termo á dor e inicio ao nada !
Inda a destruição não ha quebrado
Linhas, em que a belleza sobrevive.
Certo, notaste a angelica doçura,
O calmo somno, o extasi tranquillo
Dessas feições, que immoveis se tornaram,
Mas que dominam o languor das faces,
Sem terem inda a rigidez da morte.
Não fôra aquella fronte, quêda e gélida,
Sem lagrimas, sem fogo e sem sorriso,
Onde a apathia do sepulero engendra
Terror em quem no morto os olhos crava,
(Como si aquella vista origem fosse
De sorte igual, que tanto horror infunde),
Sim! Não fôra esse indicio irrecusavel,
Quem não descrera do poder da morte,
Ante o cunho de paz e de belleza,
Anto a serena placidez, que mostra
O da morte primeiro e ultimo aspecto ?! [6]