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Nos penetraes purissimos do seio.
Si a minha curta vida amenizaram
Em grande escala, vivas alegrias,
A dôr pungio-a em proporções maiores.
Mas da lucta e do amor as breves horas
Do tedio do viver me preservaram.
De inimigos cercado—entre os amigos
Nunca frui lazer, socego, ou calma.
Para amar e odiar nada me resta;
Nada esperança e orgulho me desperta.
Antes quizera ser o torpe insecto,
A marinhar de um carcere nos muros,
Do que rojar os dias uniformes
Em triste meditar. Sinto que nasce
Dentro em minha alma almejo de repouso.
Mas quizera gozal-o, inconsciente.
Por mais negro, que seja o meu peccado,
Dormirei, sem pensar no que já fôra
Nem no que ser quizera no futuro.
Minha memoria é tumulo, que encerra
Extinctas alegrias do passado.
Não succumbio minha alma á dôr sem trégoas;
Não quiz buscar, a exemplo de alguns loucos,
Com suicida mão forçada calma.
Nunca tive, aliás, temor da morte.
Ella me fôra grata em marcia lida,
Si a gloria e não o amor por norte houvesse.
O perigo affrontei, não por vaidade.
Que monta perda ou ganho de corôas?
E՚ quasi sempre mercenaria a fama.
Mas, haja um nobre estimulo a meus actos :
—A mulher, que idolatro, o homem, que odeio,—
Sobre os passos do Fado irei, sem medo,
Por entre o fogo e o ferro arremessar-me,
Levando vida a uma, a outro a perda ;
Pódes acreditar-me. Hoje, de novo,
Eu faria outra vez o que fizera.
A morte nada vai. O audaz a encara,
O fraco a aceita, o desditoso a implora.
A quem me deu a vida a vida entrego.
Jámais, quando feliz e poderoso,
Ao perigo dobrei... Não dobro agora.