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A cumular de dóns a nossa igreja,
Que nunca lhe escutou vozes ou preces.
Attendei, Quando o coro ao ceu levanta
A possante harmonia das litanias,
Tem esse frade o mesmo rosto livido,
Sempre guardando de marmorea estatua
A immovel fixidez e na attitude
De desafio e desespero mudo.
Oh São Francisco! Afasta-o de teu templo,
Antes que em nós a colera do Eterno
Por terriveis signaes se manifeste !
Si um anjo máo tomar figura humana,
Como a deste ha de ser. Pela esperança
De perdoados ver os meus peccados !
Nem do céo nem da terra é seu aspecto !
Nasceram para amar as almas ternas ;
Cheias, porém, de timidez, sem forças
Para affrontar os males da existencia,
Brandas em face á dôr e ao desespero,
De amor não sentem o exclusivo imperio.
Só almas fortes sangram das feridas,
Que o tempo nunca fecha ou cicatriza.
Supporta o fogo, para ser polido,
O grosseiro metal, que sahe da mina;
Fundido, corre na fornalha ardente
E, ductil, sem mudar de natureza,
Presta-se a todo o molde, a todo o emprego.
Póde utensilio salvador tornar-se,
Instrumento de morte, ou de tortura,
Forte coiraça, a proteger o peito,
Ou gladio, que traspasse o do inimigo.
Mas si elle toma de um punhal a fórma,
Tome cautela quem lhe aguça o fio !
Assim o fogo das paixões, o encanto
Seductor da mulher abranda, vence
O coração mais forte e nelle imprime
O seu destino e fórma. Elle persiste
Sempre o que dantes foi, tal qual nascera.
Si o tentarem dobrar noutro sentido,
Será baldado esforço... Ha de quebrar-se.