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Eu, si fosse o prior, não tolerava,
Nem um dia siquer, esse extrangeiro,
Ou na cella da austera penitencia
A՚ reclusão perpetua o condemnára.
Frequentemente fala, em seus delirios,
De moças, no oceano submergidas,
De sabres, que se embatem, faiscando,
De inimigos fugindo em debandada,
De tredos actos, de vingada injuria,
De um musulmano em vascas de agonia.
Sobre um rochedo de escarpada costa
Em sonhada visão do enfermo cerebro,
Sangrenta mão, de fresco descepada,
Delle só vista, lhe apontava a campa,
Convidando-o á immersão nas crespas ondas.

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Luz-lhe, sob o capuz, o olhar sombrio,[38]
Que da terra não é; o seu passado
Sem veus, bem claramente se revela
Na chamma desses olhos dilatados.
Atravéz de indistinctas cambiantes,
Muita vez, esse olhar infunde assombro,
Pois exerce o ascendente inexplicavel
Dalma, sempre rebelde a todo o jugo.
Como avesinha que sacode as azas,
Sem escapar á serpe, que a fascina,
Quem fita aquelle olhar, treme e não póde
Fugir lhe á intoleravel influencia.
Si um de nossos irmãos, a sós, o encontra
Prova um temor, que o força á retirada,
Qual si do olhar e do sorriso amargo
Traição e terror vertesse o monge.
Quando, raro, sorri, o seu sorriso
Parece escarnecer das proprias dores,
Tanto elle crispa, ironico e fremente,
O labio, que de novo immovel fica
E parece fechar se eternamente
Qual si o desdem, ou a dor vedado houvessem
Toda a leda expansão. Si assim não fôra,
Nunca exprimira jubilo sincero
Aquelle riso sepulcral. Mais triste
Seriá o pesquizar naquella face