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Capaz de perpetrar tão grande crime.
Fôra á mesquita, nessa mesma tarde ;
Déra, após, um festim em seu kiosque.
Foi esta a explicação dos servos Nubios,
Guardas do harém; mas, pessimos vigias.
Contavam outros que, naquella noite,
Da pallida Phingari á luz incerta,[17]
Correra o giaur, á desfilada,
De seu negro corcel sangrando a ilharga,
Sem comsigo levar mulher, nem pagem.
Como pintar-lhe os lindos olhos negros,
Grandes, profundos, languidos? Sómente
Pondo-lhe em frente os olhos da gazella.
Cada raio, que ás palpebras lhe desce,
Reflectindo-lhe d՚alma o intenso brilho.
Alma, sim! Si o propheta houvesse dito,
Que esse corpo não é mais do que argilla,
Pelo sopro de Allah vivificada,
Eu contestara o divinal asserto,
Mesmo passando de Al-Sirat na ponte,[19]
Que oscilla e treme sobre um mar de fogo,
E vendo em frente a mim o paraizo
E todas as huris[20] a me acenarem.
Qual crente, ao ler nos olhos de Leila,
Veria na mulher só vil poeira,
Do prazer de um senhor mero instrumente?[21]
Chamma immortal fulgia-lhe nos olhos!
O encarnado da flor da romanzeira,
Sempre recente, as faces lhe accendia.[22]
Quando, em meio das servas prosternadas,
Desatava no harém sedosas tranças,
Flexiveis como o talo do jacintho,[23]
Ellas viuham beijar da sala o marmore,
Onde, a offuscal-o, os pés lhe resplendiam,
Tão alvos como a neve das montanhas
Da nuvem paternal inda no encèrro,
Livre de pó, na virginal pureza.
E, qual desliza magestoso cysne,
Do lago á flor, na terra perpassava