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Que os peccados de Hassan punir viera,
Transformára um palacio em sepultura.
Qual simoun, chegou; foi-se, como elle[10]
Mensageiro fatal de lucto e morte,
O sopro seu destróe mesmo o cypreste,
Arvore escura, que a chorar persiste,
Quando cessado tem a dor dos outros,
E a quem trajar de dó jamais fatiga...

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Jaz de Hassan o palacio ermo de escravos.
O estabulo não tem um só cavallo.
Teia cinzenta a solitaria aranha
Vai nas paredes, lentamente, urdindo.
Ninho o morcego faz do harém nos quartos ;
Na torre do pharol habita o mocho.
Magros, famintos cães, hoje bravios,
Uivando junto á fonte, a sède illudem,
Pois do marmoreo leito, agora inçado
De sarça e de poeira, a lympha é secca.
Quanto enlevava o contemplar, outr՚ora,
Aquellas claras, saltitantes aguas,
Que, em filetes de prata deslizando,
Suavizavam a aridez da plaga,
Brincando em ledas, caprichosas voltas,
Enchendo o ar de fresquidão suave
E de verdor luxuriante o solo !
Quanto enlevava na mudez da noite,
Sob estrellado céo, limpo de nuvens,
Dessa liquida luz fitar as ondas
E ouvir-lhes o murmúrio harmonioso!
Quantas vezes, Hassan, em tenra infancia,
Junto ás margens folgou dessa cascata !
E quantas vezes, no materno seio
Essa harmonia lhe embalára o somno !
Mais tarde, em quadra juvenil, que vezes
Ouvio alli os cantos da Belleza,
Que á musica da fonte unindo a sua,
Como que lhes prestava encanto novo!
Mas na velhice, á hora do crepusculo,
Hassan alli não buscará descanço.
Secco o manancial, estanque o sangue,
Que dava ao coração calor e vida,