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Movia a dextra em gesto de ameaça.
Parecia hesitar em dous alvitres:
--Retroceder ou proseguir caminho.
Nitrio, impaciente, o seu cavallo,
Negro, quaes são do corvo as negras azas.
Então, o cavalleiro, a mão baixando,
Levou-a aos cópos da pendente espada.
Esse nitrido o despertou do souho,
No qual, sem ter dormido, estava immerso.
Assim o mocho acórda em sobresalto
A quem, tranquillo, dorme. O cavalleiro
Rasga co՚a espora os lados do ginete.
O fremente corcél, célere, vóa,
Qual dardo, que obedece á rijo impulso.[9]
Elle dobrou a rocha e já na praia
Não repercute o galopar sonóro.
Nem se vê do christão o fero vulto.
Um só momento, retivera a brida
Do fogoso corcel; sem mais tardança
Proseguio no correr desenfreado,
Qual si no encalço lhe viesse a morte.
Mas na dura do rapido intervallo
Vivas recordações de longos annos
Lhe resurgiram, subito, na mente
E adensaram num atomo de tempo
Toda uma vida de miseria e crime.
A alma, presa de amór, odio ou receio,
Nesse momento encontra resumido
Um passado de dor. Nelle, que soffre,
Essa do coração triplice angustia,
Quem marcaria a duração do instante,
Occupado em pensar no seu destino?
Si tal momento pouco val no tempo,
E՚ no seu cogitar, a eternidade.
O pensamento, infindo como o espaço,
Abrange a consciencia e encerra males
Sem esperança, sem limite, ou nome.
Passou o tempo; o giaur partira.
Logrou fugir, ou succumbio sosinho ?
Maldita a hora, em que chegou ; maldita
A hora, em que partio! Flagello vivo,