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PARISINA
 

 
I

 

Hora meiga! Escondido em ninho de verdura,
Gorgeia o rouxinol seu mais suave trino.
Cada casal amante, á puridade, jura
Amor, com expressões de encanto peregrino.

Hora meiga! Alliada a brisa, que cicia.
Do trepidante arroio ao murmurio brando.
Fórma, com elle accórde, um duo de harmonia,
Grato ao que, solitario e mudo, está scismando.

Tremúla em cada flor orvalho luzidio;
Resplende todo o céu, de estrellas recamado;
Têm as folhas do bosque um verde mais sombrio
E as ondas do oceano azul mais carregado.

Domina o claro-escuro, a baça claridade;
— Sombra, que tão suave e limpida fluctua.
Quando a noite desdobra o véu na immensidade
E o crepusculo morte ao despontar da lua.

 

II

 

Mas não é para ouvir cascata rumorosa
Que Parisina deixa o conchegado lar ;
Nem para contemplar a esphera luminosa
Que vai, só, á noitinha, o parque visitar.

Não foi para aspirar das flores o perfume
Que ao bosquete desceu; si põe á escuta o ouvido,
Não é da ave canóra ao módulo queixume,
E sim á vibração de accento mais querido.

De subito, ao tumor de passes estremece
A folhagem espessa e em derredor se agita.
Da bella Parisina o rosto empallidece;
Mais lesto o coração no peito lhe palpita.

Em extasi distingue a voz, que lhe é tão cara,
Meiga e terna a soar das arvores no enleio.
Vem-lhe, de novo, á face, a cór, que desmaiára;
Arfa-lhe, de prazer, o delicado seio.