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NOTA

 

O poema « Parisina » é, precedido da seguinte « Advertencia »:

« Repousa este poema sobre um successo, assim relatado por Gibbon nas Antiguidades da Casa de Brunswich.

Uma tragedia domestica ensanguentou Ferrara, no reinado de Nicolau III. O Marquez d՚Éste, por denuncia de um criado, foi testemunha ocular da ligação incestuosa de sua esposa Parisina com Hugo, seu filho natural, guapo e valoroso moço. Foram ambos decapitados na prisão, por ordem do esposo e pai, que tornou publico o seu opprobrio, sobrevivendo á execução. Digno de lastima é elle, si puniu culpados e muito mais si immolou innocentes.

Em qualquer dos casos, porém, não é attenuavel n՚um pai tamanha severidade. »

Byron substitue o nome de Nicolau pelo de Azo.

 
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«Eis a narração de Frizzi em sua «Historia de Ferrara», excerpto, traduzido do italiano por Byron e junto á primeira edição de « Parisina ».

O anno de 1425 correu infeliz paza os habitantes de Ferrara, pois a córte foi ensanguentada por um acontecimento tragico, cujos promenores se conservaram em nossos annaes, quer impressos, quer manuscriptos, com excepção do trabalho incorrecto e grosseiro de Sardi e de outros. D՚elles cortei muitas circumstancias, principalmente as da narração de Bandelli, historiador, que viveu no seculo seguinte ao facto, e que diverge da maioria.

« Em 1405, o marquez houvera de Stella dell՚ Assassino um filho, de nome Hugo, formoso e heroico mancebo. Parisina Malattesta, segunda mulher de Nicolau, tratava o enteado com desamor de madrasta, desgostando n՚isso ao marquez, que estremecia o filho. Solicitou Parisina do marido licença para uma excursão. Assentiu Nicolau, exigindo que Hugo a acompanhasse. Esperava elle que as relações quotidianas da viagem posessem termo á aversão da madrasta ao enteado.

O exito foi muito além de seu desejo; pois não só deixou a moça de aborrecer, como sentiu abrasar-se-lhe o coração de apaixonado amor ao filho de seu marido. A՚ volta, nunca teve e marquez occasião de renovar á Parisina as arguições, que, outr՚ora, lhe fazia a respeito de Hugo.

Um dia, certo serviçal do marquez, Zoese de appellido, (outros chamam-n՚o Giorgio,) ao passar em frente dos aposentos de Parisina, viu d՚elles sahir uma de suas aias, transtornada e desfeita em lagrimas. Interrogada, respondeu essa mulher, que, por falta ligeira, fôra pela marqueza maltratada, accrescentando, em expansão de resentimento, que lhe setia facil tomar della vingança, pondo a descoberto a ligação criminosa de Parisina com o enteado.

De tudo deu o serviçal conhecimento ao marquez. Recusou este dar fé á horcivel declaração; mas teve (oh vergonha!) de certificar-se da verdade por seus proprios olhos applicando-os á uma fresta, que mandáta abrir no quarto da mulher. Delirando em grande accesso de furor, deu, immediatamente ordem para que fossem presos os culpados e com elles Aldobrandino Rangoni, de Modena, e duas aias, que haviam apadrinhado o incesto.

Sujeitou-os, acto continuo, a um tribunal, que, julgando-os, de conformidade com a lei commum, pronunciou pena ultima. Intercederam, entre outros, em favor dos culpados Ugoccion Contrario, personagem de peso no espirito de Nicolau, e Adalberto dal Sale, velho criado do soberano. Ambos, em soluços, rodeando-lhe com os braços os joelhos, appellavam, em humilde supplica, para a sua compaixão; inventavam excusas e faziam valer todas as considerações, que aconselhavam a disfarçar-se, ante o publico, o escandalo. Foi em vão. Inflexivel em sua colera, o marquez ordenou a prompta execução da sentença.

Na noite de 24 de Maio, Hugo e, após elle, Parisina foram decapitados na medonha prisão, ainda hoje existente por baixo do aposento Aurora, junto à torre de Lião, na extremidade da rua Giovecca. Acompanhou, de braço, a Parisina, até o lugar da execução, o serviçal Zoese, seu denunciante. Na persuasão de que ia ser encerrada n՚um calabouço, perguntava a ré, em quanto seguia caminho, si estavam longe, ou perto. A resposta fôra que ia ser degolada, e não encarcerada. Inquerindo de Hugo, e sabendo que já elle estava morto, rompeu n՚esta exclamação: «Nada mais me prende á vida. » Ao chegar junto ao cepo, despojou-se, pelas proprias mãos, de todos os enfeites, e, velando a cabeça, offereceu-a ao golpe fatal, que póz fecho á lugubre scena. Coube á Rangoni a mesma sorte. Resa o registro da bibliotheca de São Francisco que foram os tres reus entertados, juntos, no cemiterio d՚aquelle convento. Nada consta á cerca das aias.

O marquez passou insomne toda aquella noite, percorrendo, a largos passos, o aposento. Perguntou ao capitão da guarda si Hugo já fora executado. Ouvindo resposta affirmativa, entregou-se a transportes de dôr, bradando, entre gemidos: « Porque não morri, eu, que fui forçado a sentenciar meu filho á morte...? » No dia seguinte, lembrou-se de justificar seu procedimento, que não podia ficar em segredo. Redigiu processo verbal, de que enviou copia a todas as côrtes da Italia.

Ao receber a noticia, Francesco Foscari, doge de Veneza, mandou suspender, sem declarar porque, os preparativos d՚um torneio, que, sob os auspicios do marquez e a expensas da cidade de Padua, ia celebrar-se na Praça de S. Marcos, para festejar a posse de mesmo doge.

Não satisfeito com o supplicio, o marquez, impellido por inconcebivel desejo de vingança, sentenciou á morte do cutélo outras muitas mulheres, nas condições de Parisina, entre ellas Barberina, ou, como alguns a chamam, Laodamia Rome, mulher do principal juiz de Ferrara. Soffreu ella igual pena no lugar ordinario das execuções, isto é, no bairro de São Thiago, em frente da actual fortaleza, um pouco além de S. Paulo. Não ha censura bastante paza a crueldade d՚esse principe, a quem motivos sobejos assistiam para ter, n՚este particular, mais indulgencia, que os outros. Houve, no emtanto, quem o justificasse.

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