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PARISINA

E d՚onde procedeu? Foi d՚uma gelosia
Da régia senhoril. Os olhos convergiram
Para o sitio indicado. Alli nada se via.
Escutatam em vão, pois nada mais ouviram.

Era voz de mulhet. De humana creatura
Qual mais desesperada? Aquelles que o escutaram,
Cheios de compaixão por tanta desventura,
Que fosse aquelle grito o extremo desejaram.

 

XIX

 

D՚esde que o delinquente expiara o desacate,
Sumiu-se Parisina e nunca mais a viram.
Qual si fosse expressão, lesiva do recale,
Todos o nome d՚ella aos labios prohibiram.

Azo não faz menção, jamais, de filho e esposa.
Preito não se lhes deu de tumulo, ou letreiro:
Em sagrado torrão nenhum dos dois repousa...
D՚isso ha plena certeza, em quanto ao cavalleiro.

De Parisina o fim permaneceu occulto,
Como as cinzas de um morto em taboas do ataude :
Ao claustro recolheu? Alli comprou o indulto.
A՚ custa de remorso e penitencia rude?

Contrita, acrysolou su՚alma polluida
Do cilicio, jejuns e insomnias no rigôr;
Seria pelo ferro ou toxico punida
De seu tão arrojado e criminoso amor;

Ou quiz, piedoso, o ceu, poupando-lhe tormento,
Que da morte do amante a triste succumbisse,
E nos transes da dôr o seu ultimo alento
Do roto coração c՚o a vida lhe fugisse?

Quem o póde saber? De tal não ha sciencia;
D՚esse mysterio o veu não ha rasgal-o alguem.
Certo, qual começou, findou sua existencia:
Abre a vida c՚o a dôr; na dôr seu fecho tem.

Teve Azo outta mulher. Cresceram a seu lado
Filhos, que deram lustre á sua estirpe nobre.
Nenhum d՚elles, porém, tão bello e denodado,
Como aquelle que, ha muito, o chão funereo cobre.

Ou si estão com o morto em linha de igualdade,
Nunca se mostra o pai dos filhos orgulhoso.
Quando o principe cede á força da verdade,
Costuma soffrer suspiro pesaroso.

Nunca mais essa face as lagrimas sulcaram,
Nem sorriso alisou aquella vasta frente,
Onde do pensamento as rugas se gravaram:
— Sulcos, que abre da dôr precoce a celha ardente.

Taes cicatrizes n՚alma as guerras d՚alma deixam.
Misero! Já não tem nem dôr, nem alegrias.
Por noites de afflicção seus olhos não se fecham,
E arrasta em magoa e tedio insupportaveis dias.

A՚ censura, ao louvor estranha jaz su՚alma.
Nada quiz perdoar; de nada se olvidava.
Quando mais se investia em rigidez e calma.
A՚ ideas e emoções intensas se entregava.

N՚um rio a superficie apenas é gelada;
Vivas por baixo, a flux, correndo as aguas vão,
E sempre hão de correr. Assim, sob a camada
De gelo, que involvia aquelle coração,

Gyravam, sem cessar, idéas em corrente,
Que a natureza alli, bem fundo, lhe imprimira,
De modo a não poder banil-as, facilmente,
Como, p՚ra todo o sempre, as lagrimas banira.

Si ao rapido passar, a custo, suspendemos
Essa do coração purissima agua viva,
Não é que n՚esse esforço o veio lhe esgotemos;
Ella reverte, logo, a fonte primitiva;

Lá, em crystal mais puro, em mais profundo leito,
Sem jamais congelar-se, occulta, não vertida.
— Quanto mais concentrada em adytos do peito
Cada lagrima ardente, é tanto mais dorida.

Sentindo renascer assomos de ternura
Pelos que condemnára á degradante exicio,
Não podendo luctar com a solidão escura
Do vacuo da existencia — o seu maior supplicio —

Sem esp՚rança de os vêr na região serena,
Onde p՚ra o goso eterno as almas vão juntar-se;
Conscio que déra aos teus a merecida pena,
Azo em triste velhice a vida vê findar-se.

Quando de arvore forte em ramos filtra a eiva,
Si opportuna lhe acode a póda habilidosa,
Bebendo pelo tronco e folhas nova seiva,
Póde reverdecer e reflorir, viçosa.

Mas si o raio chammeja e, furioso, desce
A՚ cópa, que reduz á cinzas, n՚um momento,
Nú, combusto no cerne, o tronco permanece,
Sem jamais abrolhar no minimo rebento.

 

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