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PARISINA

Amarga hora suprema! A՚ na vinda, o susto
Invade o mais valente. Execra-se o flagicio;
A justiça, que o pune, exerce um acto justo;
Mas quem não estremece á ideia do supplicio ?!

 

XVII

 

Exalçou para o ceu o rógo derradeiro
O filho, ao pai traidor, o incestuoso amante.
De tudo se arguiu; desfiou cosario inteiro,
E chega, sem remedio, a seu final instante.

Despojam-no do manto. A coma, que, tão bella
Se desdobra em anneis, cortada eil-a no chão.
A charpa, que elle traz e fóra mimo d՚ella,
E a véste — não n՚as leva á funebre mansão.

E՚ preciso despir o seu fidalgo traje;
E՚ mister consentir que um alvo lenço vele
Seus olhos... Porém não... Aquelle ultimo ultraje
Não ha de supportar. Seu animo o repelle.

Quando querem vendal-o, o brio lhe resalta
Do estudado desdem, em que jazeu; pois sente
Que o deprimem assim, fazendo crer lhe falta
Valor para encatar a morte, frente a frente.

Com signal expressivo o feto condemnado
Desviando a mão do algoz, vehemente, assim profere:
«Sangue e vida te dou; conserva-me algemado;
Mas deixa-me expirar c՚os olhos livres. Fere!... »

Põe no cepo a garganta, e em quanto está vibrando
«Fere», — seu grito extremo — a mão do algoz cruento
Ergue o ferro luzente e, o golpe desfechando,
Decepa-lhe a cabeça e a rola ao pavimento.

Convulsivo tremor bocca e cilios lhe agita;
Labios, olhos, p՚ra sempre, immoveis se tornaram;
Veias do tronco seu, que, informe, inda palpita,
Harta chuva de sangue ao pó de chão golphazam.

Humilde peccador, morreu, sem do peccado
Fazer alarde vão. Orou com humildade;
O confessor não foi por elle desdenhado,
E não desesperou da Divinal Bondade.

Curvado ante o prior, tendo a alma deputada
De todo o terreal, humano sentimento,
Sen irritado pai... a sua propria amada,
Que podiam valer no critico momento?

Nem desesperação, nem queixa. A Deus se volve
Pensamento qualquer, que o cerebro lhe gera;
Palavra, que profere, em rógo se resolve,
Contrario, n՚este ponto, áquillo, que fizera

Quando, ao ferro do algoz o nú pescoço expunha,
Reclamando-lhe o jus de vêr a morte em face.
Fóra o ultimo adeus á toda a testemunha,
Que assistiu d՚esse drama ao triste desenlace.

 

XVIII

 

Mudo, como esse labio, á que poz sello a morte,
Cada um espectador contém o seu respiro.
Forte horripilação de electrico transporte,
D՚ala em ala a correr, perfaz da turba o gyro.

Quando veio ferir da machadinha o fio
Esse, que assim findava os dias e os amores,
Só quebrou o silencio um leve murmurio
— O de abafados ais, leaindo intimas dôres. —

Não houve outro rumor, coetaneo ao do machado,
Que dá, forte, no cepo e funebre resóa.
Não houve... a não ser um... Que lanscinante brado
Vibrando, fere o ar e os tympanos magoa!?

Grito de insania e horror, qual solta voz materna
Quando um filho adoece e morre, de repente.
Exprimindo d՚um՚alma a dor immensa, eterna,
Esse guito se exalça aos pés do Omnipotente.