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Disse. E os braços cruzando, os seus grilhões tiniram;
E a todos, que na sala estavam reunidos,
Esse lugubre som, que os echos repetiram,
Molesta vibração causára nos ouvidos.
Aos encantos fataes da moça miseranda
Todos attento olhar dirigem, nesse instante.
Não ha de (pobre ser)! matal-a a dôr infanda
De ouvir mortal sentença imposta ao triste amante?
E ella, pallida e quêda alli se conservára,
— Causa viva do mal, aos dois acontecido. —
Olhos em fixidez, que a dor esgazeára,
Para nenhum lugar se haviam dirigido.
Nem uma vez, siquer, as palpebras descéra
Para d՚ellas no veu sumir o olhar párado,
Por onde se alastrava a baça côr da cera,
Que ás pupillas lhe cerca o azul immaculado.
Em pé, vidzado o olhar, tal como si gelar-se
Sentica o sangue seu — da palpebra na alvura,
Pranto, que lento vem, a espaços, condensar-se,
Das pestanas lhe cai por entre a franja escura.
Vé-se; não se descreve aquella scena horrivel!
E quem essa agonia atroz presenciasse,
Inda vendo-as cair, diria que impossível
Fóra que humano ser taes lagrimas chorasse.
Ella lenta falar. A lingua, já pesada,
Palavras, que não finda, apenas, articula;
A dôr corta-lhe em meio a phrase começada:
Na humida garganta a voz se lhe estrangula.
A essa crise deu fim gemido surdo e afflicto,
Parecendo arrancar-lhe ao peito o coração.
Quiz, de novo, falar, e um prolongado grito
Foi da dôr, que a pungia, a unica expressão.
Veio á terra. Assim cai estatua, sacudida
Da base; tal da pedra o tombo violento.
Mais parece uma coisa inanime, sem vida,
E da consorte d՚Azo o sepulchral moimento,
Que a mulher, no esplendor da força e juventude,
Por indomito amor ao crime arremessada,
Que, ora, da accusação succumbe ao pézo rude
E, verga em desespero, á culpa revelada.
Vive; em deliquto jáz, bem semelhante á morte.
Presto a fazem volver da angustia ao paroxysmo;
Mas não volve á razão. O abalo foi tão forte.
Que lhe partiu, de um golpe, as mólas do organismo.
Qual arco, cuja corda a chuva se distende,
Lança fóra da mira as settas despedidas,
De seu cerebro a teia, a esmo, só desprende
Falas sem seguimento, ideias descosidas.
Passado já não tem; — caligem tenebrosa,
De sinistros clarões cortada — é seu porvir.
Assim, de quando em vez, por noite procellosa,
Em erma estrada vem relampagos luzir.
Sentia com terror que em sua consciencia,
— Fardo gelido e grave — um acto mau pesava ;
Que havia opprobrio e crime e alguem nessa emergencia
Deveria morrer. Mas quem? Não se lembrava.
Mas é certo que vive? E՚ terra o que ella pisa?
E՚, na verdade, o ceu, que sua vista abraça?
Serão homens reaes, que em torno alli divisa,
Ou demonios, fitando olhares de ameaça
Nessa, que em todos via olhar benevolente,
Encomios, saudações de sorridentes bocas?
Hoje é tudo confuso e vago nessa mente
— Cháos de terrores vãos e de esperanças loucas. —
Alternando esse riso e pranto sem motivo,
E levando ao delirio o jubilo e o pesar,
Sob o domínio está de um sonho convulsivo;
E, em vão, ha de querer do sonho despertar.
Em cadencia, a oscillar na torre do convento,
Tisnada pelo tempo — está dobrando o sino —,
Dentro dos corações o som funereo e lento
Repercute. Escutai! Nos ares vibra um hymno.
Piedosa oração, solemne, a Igreja entôa
Por quem a morte espera, ou morto já, descança.
Do involucro mortal, em breve, uma alma vôa;
Por ella ergue-se o hymno e o sino os dobres lança.
Toca da vida o termo; ao confessor prostrado,
(Coisa triste a narrar e á vista repugnante)!
Sobre o lagedo nú e fio ajoelhado.
Hugo, da guarda em meio, o cepo tem diante.
O algo está presente e, a fim de que se apure
No desfechar do golpe, o braço desnudou.
Cuidadoso, examina o fio da segure,
Que para a execução, adrêde, preparou.
No entanto, a multidão em torno se agglomera,
E em circulo cerrado infileirar-se vai;
E (espectaculo atroz)! silenciosa, espera
Ver um filho morrer, por ordem de seu pai.
Foram cheios de encanto os ultimos instantes,
Fugazes, precedende o fim d՚aquelle dia.
O sol na triste scena os raios mais brilhantes,
Como por irrisão, do occaso desferia.
Na cabeça do reu dardeja a luz diffusa;
Emquanto, ajoelhado, em contricção sincera,
Ao ministro de altar dos crimes seus se accusa,
E na benção da igreja o seu indulto espera.
Na grave e curva fronte um raio se insinua,
E desce a illuminar-lhe a cabelleira escura,
Cujos bastos anneis de sua gorja nua
Vão, em parte, encobrir a delicada alvura.
A luz fere tambem a lamina polida
Do cutelo, visinho ao moço genuflexo,
E espelhando-se alli, resurte, repetida
Num cego, offuscador, mas funebre reflexo.