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PARISINA

Nem só a espóras d՚ouro imprime lustre e gloria
A de origem mais nobre, antiga, illustre grey.
C՚o as minhas, quanta vez, gritando « Éste e Victoria » !
De generaes avante o meu corcel lancei!

Não me excuso. Sou teu. Nem peço horas, ou dias,
Que me alonguem, um pouco, a terreal viagem.
Taes horas, aliás, por minhas cinzas frias
Passarão, sem alguem fazer-lhes a contagem.

Era bem de prever não fosse duradouro
Meu delirio de amor. Foi sembra fugitiva!
Bem que o berço me inquine original desdouro,
E me deturpe a vida a mancha primitiva,

Posto que o teu desdem fidalgo recusasse
Acolhimento dar á coisa vil, qual sou,
As paternas feições eu tenho em minha face
E por tua alma, em tudo, a minha se moldou.

Animo sem temor me coube, por herança,
De ti... Que estremeção te abala, desta sorte!
Proveio-me de ti, na sua mór pujança,
Um coração ardente, um braço agil e forte.

Infundiste-me a vida e tudo, que podia
Tornar-me outro tu mesmo, um Azo repetido.
Teu criminoso amor no filho te punia,
Fazendo-o, a mais não ser, comtigo parecido.

Nada em meu coração de bastardia existe;
Minh՚alma, como a tua, odeia todo o jugo.
A vida, dom fugaz, que tu me transmittiste,
E que vás retomar, por mão de teu verdugo,

Tem p՚ra mim o valor, que á tua davas, quando
Da refrega no ardor, na fronte os capacetes,
Pelo sangrento chão cadavetes calcando.
Faziamos voar os ardegos ginetes.

Todo o passado é nada. As horas transitorias.
Que tenho de porvir, serão como o passado.
Peza-me, ao me rever no quadro dessas glorias.
Que não houvesse, então, meus dias terminado.

De minha pobre mai causaste a desventura;
Roubaste-me a mulher, que me era destinada.
E՚s meu pai. Nem de injusta acoimo a pena dura;
Seja embora por ti ao filho decretada.

O fim de minha vida é como seu começo;
No peccado nasci; na infamia vou morrer.
Impões-me este castigo; eu só não o mereço;
A pena de nós dois estou, óra, a soffrer.

Vós, austeros mortaes, de alvitre escrupuloso,
Que da moral do mundo os dictadores sois,
Podeis, embora, o filho achar mais criminoso,
Que o pai. Só cabe a Deus julgar entre nós dois. »

 
 

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