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E elle, — seu cavalleiro — o amante, que escolhera;
Que manchára, a seu lado, o leito paternal;
Que, de lança enristada, em prol d՚ella correra,
Si nos olhos lhe lesse, apenas, um signal;
Não vê que outros grilhões os braços lhe encadeiam ?
Não enxerga, sulcando aquelle rosto lindo,
Lagrimas de afflicção, que os olhos lhe roxeiam,
Menos que a propria dôr, do amante a dõr carpindo?!
Das palpebras não vê a errar-lhe no alabastro,
Que sempre a beijos fóra um fervido incentivo,
Violaceo matiz das veias — vivo rastro.
De martyrio cruel, de dôr sem lenitivo,
Palpebras, que em livor agoza lampejando,
Em vez de serem veus dos olhos, que o cançaço
Immoveis já tornou, estão n՚elles pesando,
E se innundam de pranto, ao fim de curto espaço?!
Elle tambem chorára a sorte da mesquinha,
Si cravados não vira em si tantos olhares.
A dôr, si dôr sentia, occulta se continha;
Guardava erguida fronte e sobranceiros ares.
Humilhara-o o trair a sua magua eterna.
Não fita n՚ella o olhar. Por diante lhe perpassa
O tempo, que fugira, a colera paterna,
Seu crime, seu amor, sua actual desgraça,
O odio, a repulsão da gente, que venera
A sagrada moral, — a sorte que lhe cabe
No mundo e a que, depois, na eternidade e espera. —
E a d՚ella qual será? Sómente Deus o sabe.
Fallece-lhe valor de olhar para esse rosto,
Onde o funebre sello a morte já gravou;
Mas o seu coração revela amplo desgosto
E o remorso cruel dos males, que causou.
Azo toma a palavra e diz: « Hontem, ainda,
Cifrava o orgulho meu no filho e na consorte.
Sonhei. Desde manhã, a minha crença é finda;
E, antes do pôr do sol, ceifal-os ha de a morte.
Na solidão verei meus dias arrastrados;
Mas todos, no que fiz, de accordo estão commigo.
E que importa hajam sido os vinculos quebrados,
Si o não foram por mim? Eis prestes o castigo,
Hugo! Curva-te ao padre; em confissão te exprobra.
Logo após, soffrerás a pena do attentado.
Resa, em quanto no espaço a noite não desdobra
O seu escuro veu, de estrellas matizado.
Possas indulto havez! E Deus, sempre, accessivel
A quem, de coração, misericordia implora.
No mundo não ha sitio, em que seja possivel
Juntos ambos viver, siquer por uma hora.
Não te verei morrer! Mas é mister que assista
Ao supplicio do amante e o veja degolar
A fragil creatura... Oh! Foge á minha vista!
Afasta-te d՚aqui... Não posso terminar.
Retira-te, ó mulher de peito dissoluto!
Este sangue não eu, sim tu vás derramal-o!
Si resistes com vida, após tamanho lucto,
Eu deixo-te o viver. E possas desfructal-o! »
Azo escondeu na dextra a fonte incendiada;
Sem mover-se ficou. Nem mais palavra disse.
Sentia a arteria inchar, bater precipitada,
Como si todo o sangue ao cerebro affluisse.
E, sobre os olhos pondo as mãos, como resguardo,
Para os poder furtar ás vistas circumstantes,
Fronte inclinada ao chão, qual si vergasse a um fardo,
N՚aquella posição ficou, alguns instantes.
Hugo, para seu pai tolhidas mãos erguendo,
Para breve discurso a venia lhe supplica.
Azo em mudez se fecha. Em tal silencio vendo
Symbolica licença, assim Hugo se explica:
«A morte não me assusta. Abrir sangrenta estrada
Me has visto ao lado teu e á frente dos mais bravos;
Nunca em ocio dormiu a gloriosa espada,
Que, ha pouco, me arrancou a mão de teus escravos.
Ella já derramou mais sangue em teu serviço,
Do que tem de manar do golpe, que imminente
Vejo. Déste-me o ser. Nem grato sou por isso;
E՚s livre em retomar o teu fatal presente.
Traidor á minha mài, mentiste-lhe á promessa.
Foi-me vergonha e opprobrio a herança maternal.
Ella dorme na campa; a campa, bem de pressa,
No bojo sorverá teu filho e teu rival.
Seu pobre cotação, por ti despedaçado,
Minha fronte, que o ferro houver, então, scindido,
Do tumulo dirão, — qual funebre attestado,—
Que solicito pai, que tezne amante has sido.
Com ultraje paguei o ultraje, que me has feito.
Victima, como eu sou, de insano orgulho teu,
Ella... tua mulher... devia de meu leito
Compartir; só fallava a benção de hymineu.
Abrasado de amor, ficaste, logo ao vel-a;
Arguiste-me teu crime — a minha bastardia;—
Pintaste-me incapaz de amal-a e merecel-a.
Pois de meu berço a nodoa o thoro mancharia.
Porque? Veda-me a lei que eu use de teu nome,
E como herdeiro d՚elle ao mundo me apresente;
Minha origem impura impede-me que eu tome
Lugar na casa d՚Este e ao throno seu me assente.
Si alguns estios mais me fossem concedidos,
Radiára meu nome em tão intenso brilho,
Que, por feitos de escol, sómente a mim devidos,
Cedêra a gloria d՚Este á gloria de teu filho.
Tive uma espada, sim ! — E tal valor me anima
Que alcançar poderia uns topes, mais brilhantes,
Do que todo e qualquer que os morriões encima
De teus regios avós, na guerra triumphantes.