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Decorrido que seja um rapido momento,
Verá junto de si o companheiro amado.
O instante deslisou. Em agil movimento,
Cai-lhe, offegante, aos pés o amante ajoelhado.
Que lhes importa, agora, o mundo e a contingencia
Dos successos da vida ? O espaço, a duração,
A terra, o mesmo ceu, dos seres a existencia,
De seu corpo e sua alma aos olhos nada são.
Qual no somno da morte o amante par immerso,
Insensivel a quanto em roda se passava,
Esquecera, de todo, o resto do universo;
Um d՚elles para o outro apenas respirava.
Ha no seu suspicar tão grande vehemencia
De goso, que si forte assim se conservasse,
De tal felicidade e jubilo a demencia
Aquelles corações, talvez, aniquilasse.
Poderiam pensar nos riscos, no adulterio,
Emquanto lhes durava o sonho seductor?
Diga quem já sentiu do Amor o forte imperio
Si em taes casos soffrem assaltos de terrór.
Que o delirio de amor é curto e passageiro,
A՚ que amante acudiu? Acaba de passar...
E acorda o sonhador do sonho lisonjeiro,
Inscio de que as visões não mais hão de voltar.
Lento, e mau grado seu, do sitio se retiram,
— Theatro de paixão culpada, mas tão doce.
Aprazam novo encontro. Emtanto, ambos suspiram,
Como si aquelle adeus o derradeiro fosse.
O suspiro sem pausa, o geminado amplexo,
O labio, que não mais do labio se desprende...
(Ella a face escondia ao lucido reflexo
Do ceu, que receiava e a quem, peccando, offende,
Como si cada estrella, a scintillar no espaço,
Vira aquelle impudor, do ether atravéz)...
O desejo frequente, o repetido abraço,
Como que á flor do chão lhes afferrava os pés.
Insta a separação e cada qual dirige
Os passos, de seu lado. O peito lhes opprime
Calefrio gelado, horripilo, que afflige;
— Corollario fatal, immediato ao crime —.
Hugo se recolheu ao solitario leito,
Onde, a salvo, cogita em seu amor culposo,
E ella foi encostar a fonte junto ao peito
De seu nobre, ultrajado e confiante esposo.
Em um somno febril se agita e não repousa;
Traduz-lhe a face em fogo o interior tumulto;
Balbucia, sonhando, um nome, que não ousa
Dizer á luz do sol e sempre guarda occulto.
Aperta ao coração, que bate pelo ausente,
O esposo, que desperta e pensa com delicia
Ser a demonstração de puro affecto ardente
Aquella abençoada e férvida caricia.
Feliz de se embalar em crença tão fagueita,
Corresponde ao transporte e de ternura chora
No seio da leal e amada companheira,
Que, ainda entregue ao somno, assim o quer e adora.
Achega-se á dormente e sobre o seio a preme;
Aos sons, que ella entrecorta, attento ouvido presta...
Pára... Porque motivo empallidece e treme.
Qual si á tuba do Acchanjo ouvisse a voz funesta?
Não lhe póde troar mais horrida sentença,
Na campa, ao despertar de derradeiro somno,
Quando, p՚ra receber castigo on recompensa,
Do supremo juiz comparecer ao throno.
Tem razão de tremer. O que da esposa ouvira
Havia o seu porvir no mundo destruido.
O nome, que ella, ha pouco, em sonho proferira,
E՚ villa da mulher, deshonra do marido.
Tal nome lhe estrugiu com o fragor da vaga,
Que atira ao longe a prancha, o naufrago arrojando
Na aresta do rochedo e deste ao mar, que o traga.
Embale igual soffreu o esposo miserando.
Esse nome foi — Hugo — o seu... Possivel fóra
Suspeitar desse filho, em quem tanto fiára?
Hugo, havido de Branca, a joven seductora.
A quem jurára fé e nunca desposara ?!
Leva a dextra ao punhal e azzanca-o mais de meio;
Vai a infame punir. Mas... torna a recolhel-o.
Não póde resolver-se a deformar o seio
De quem é da belleza esplendido modelo.
Ella reata o somno e tem risonha a face.
Alli... não! Inda mais... não trata de acordal-a;
Mas vibra-lhe um olhar, que, si ella despertasse,
No mais fundo torpôr devera mergulhal-a.
Suor frio, que á luz da lampada scintilla,
Aljofra rosto e fronte ao principe infeliz.
Calou-se Parisina e dorme, bem tranquilla,
No instante, em que lhe conta os dias seu juiz.
De manhã, Azo inquire e colhe, exuberante,
Toda a prova, que teme e colligir procura.
Vai agora sentir, pungindo-lhe, incessante,
O crime atroz dos seus e a sua dor futura.
Negam cumplicidade em erros da accusada
As aias, que salvar, dess՚acte, a vida alcançam.
Dizem que é d՚ella só a falta praticada;
Vergonha, exprobrações só d՚ella á conta lançam.