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Tomás Antônio Gonzaga, ouvidor de Vila Rica, onde se apaixonara pela mulher, que tão bela se lhe apresentara, estava despachado desembargador da relação da Bahia, e demorava-se ainda, tratando da sua união conjugal com aquela, que era o único assunto das suas tão decantadas liras, quando de repente se viu envolvido com muitos dos seus companheiros e colegas, nas complicações políticas, a que se deu o título de Inconfidência; arrancado de sua casa, foi carregado de ferros, e assim entrou pela cidade do Rio de Janeiro, onde foi sepultado numa das masmorras da ilha das Cobras.

Ali, sem papel nem tinta, aproveitava-se dos poucos recursos, que imaginava, para escrever seus versos. Servia-lhe de pena o pedúnculo de uma laranja, que lhe davam para sustento, de tinta o fumo da candeia, que o alumiava; e de papel a enegrecida parede do seu cárcere. Ali ouviu ele ler a pena, a que o condenara a sentença da alçada criada para esse fim, degradando-o perpetuamente para as pedras de Angoche, e que foi depois comutada em dez anos de degredo para Moçambique. A 22 de maio de 1792, o navio Princesa de Portugal o conduzia para o lugar do seu exílio; ali no céu de bronze, um sol abrasador, o clima pestífero, que Deus destinara aos tigres e leões, a saudade das terras brasileiras, a lembrança dos seus parentes, tantas recordações enfim, lhe foram pouco a pouco gastando a existência. De quando em quando se exaltava, animava-se, dominado