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— Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amôr á virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo!
As inflammadas nuvens já se abatem
Do incendio occidental.—Reina o silencio
Temeroso e fugaz:—a natureza
Entre o somno e a vigilia está suspensa.
Oh! quem não sente susurrar-lhe n’alma
Um desejo ineffavel como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amavel entre a dôr, e o riso,
Magicamente embala-se a existencia;
Em cada coração qu’inda palpita
Sonora cáe da lyra do Universo
Uma nota de amôr e de saüdade.
Extatico no cume da montanha
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o balsamo de amôr, que a tarde mana,
No coração do barbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão languido,
Tão mysterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amôr em tudo.