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III


Salve, filha dos raios e das trévas,
Melancolica irmã das noites pallidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar mysticas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra suspendendo o gyro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso:—sôbre o cabo
Da rude enxada recostado scisma
Nos africanos céos o pobre escravo,
Exhausto de fadiga to abençôa
Do fundo d’alma em barbara linguagem.
Mensageira de amôr, tu annuncías
A hora propicia aos soffrêgos amantes
Da nocturna entrevista, e a donzella
Erma de amôr te acolhe pensativa,
Phantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe suppram.
— Talvez agora na floresta annosa
Proscripto errante o indio americano
Pára, eleva-te um cantico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circumdam.