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Desde o berço da infancia sobraçado
Co’a minha harpa infeliz, arrasto a vida
Pelo valle das dôres, onde inscripto
Encontrei meu lugar por entre tumulos…
Vêde! meus fracos pés ensanguentaram
As negras pedras da espinhosa estrada;
E nas azas do Zephyro partidas
Nunca mais soarão minhas endêchas!
Hoje na lage dos sepulchros venho
Quebrar esta chrysalida de argilla,
Que á hospede celeste os vôos tolhe,
E como ao lume a improvida pyrausta
Bater as azas para o sol da vida.

Foi triste o fado! meu Por entre os raros
E fugitivos sonhos que adejaram
Ao turvo céo de minha juventude,
Sempre, sempre surgiu a escura imagem
D’alguma dôr atroz, e á seu aspecto
Meus bellos sonhos timidos fugiam,
Bem como do rosal fogem as pombas
Ao chegar do milafre. Oh! lastimai-me!
Na sequiosa taça de meus dias
Foram caindo as horas inflammadas
Como fogo do céo na sarça adusta.