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Adeus, ó meus amigos, uma lágrima
Na dextra fria do espirante Bardo,
Que só roçou nas illusões da vida,
Nas mentirosas vestes que rebuçam
A estatua immovel, negra, do infortunio!
Sôbre os meus olhos erram mil phantasmas
Sem côr, sem fórma; e no confuso espirito
Pousam e fogem, trépidos cardumes
De sonoras idéas, como enxames
De abelhas sobre flôr languida e sêcca.
Adeus, inda uma vez! que já no occaso
Meu sol vacilla, e o véo da noite baixa
Sôbre o perdido viajôr da terra;
Convém deitar-me ao lado do caminho,
A’ sombra do cypreste, e sem alentos
Dormir no esquecimento o somno eterno…

Entre a risonha multidão dos vivos,
Estrangeiro sem nome hei caminhado,
Triste exhalando em suspirosos cantos
Uma por uma as dôres, que em meu peito
Renasciam crueis… Oh! a desgraça
Seguiu-me a passo como a sombra ao corpo,
E no meu coração vibora interna
Matou-lhe as emoções, quebrou-lhe as fibras.