Página:Aureliano José Lessa - Poesias posthumas (1873).pdf/30
A’ nossos pés caudal esta cascata
Mugindo entorna espumas côr de prata,
Que tombam nas campinas:
Pensas que leva a morte em seus furôres?
Vai regar mansamente, entre verdôres,
Delicadas boninas.
Ergue as vistas ao céo, e se és poeta,
Arremessa o olhar como uma setta
Para além do hemispherio:
Que encontras nesses páramos profundos?
Mundos, céos ao redor, mais céos, mais mundos,
— Deus envôlto em mysterio!
Ah! se a origem da luz nos foge aos olhos,
Qual o pharol será nestes abrolhos
Que nos deve guiar?
Embalde a f’licidade marêemos,
Co’a esperança nos braços morrerêmos
Maldizendo este mar!
Que nem sequer ao homem seja dado
Ser tão completamente desgraçado,
Que sêl-o mais não possa!
No mal terrestre, ephemero e pequeno,
Ha um sabôr de nectar em veneno,
Que o infortunio adoça.