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Eis o que me disseram:
— A felicidade é a mocidade, a força, a formosura, a glória, a sabedoria, a riqueza, o prazer sensual, a mesa, o jogo, a dança, a orgia, e a honra.—
— A felicidade é o brilho do ouro enterrado em ferreos caixões, a indolencia do corpo e do espirito, a glória militar, ou a tranquillidade doméstica, e familiar.—
— A felicidade é a vida do marinheiro, do sacerdote, da ave, da flôr, do rei, do idiota, do assassino, e do louco, o amôr, a contemplação, e a fé, a vida do probo, ou do atheu, e do hypocrita.
E quiz reflectir sôbre tanta contradicção, e harmonisal-as; mas a descrença enregelou-me as idéas, e gemi!…
O sôpro de um demonio enlutava-me a intelligencia, e o meu cerebro era como o pavilhão de cáhos…
Foi então que murmurei atturdido um conjurio horrivel…
Ai! a aurora de minha existencia, como a boreal, espancára as trévas de minha infancia, e o clarão tinha passado como a sombra do môcho sôbre um cadaver.
Ia invocar a omnipotencia do nada, quando…
— Olha! — disse-me um Grego, — e eu olhei…
Era um homem dentro de um tonel.