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Já gozei, como vós! da flôr dos annos
O perfume aspirei inda na aurora
Da minha juventude, quando um astro
Innundava de luz meu horizonte
Limpo de nuvens, quando a voz de um anjo
Fallava-me do céo, e filha delle
Com osculos de amôr me ungia os labios…
Tempo ditoso!… Para mim brilhavam
As estrêllas no céo, no prado as flôres,
Um sol de fogo, e a lua esmorecida;
P’ra mim cantava o sabiá canoro,
Bradava o mar, o zephyro gemia,
A tarde era serêna, o bosque verde,
E a fonte harmoniosa.
Era una orchestra a natureza toda,
E os échos da montanha repetiram
Meu cantico de amôres.
De rosas enramei a lyra de ouro
Para cantar da minha amada o nome,
Mais doce do que o mel, vibrei-lhe as cordas,
Que ao toque de meus dedos palpitavam
De glória, e de prazer!… Oh! que é das flôres
Que outr’ora engrinaldaste-me na lyra,
O’ minha pomba tímida, e innocente?
Que é dos magicos sons que então feriamos,
O’ minha lyra triste, e malfadada?
Tudo foi como as illusões de um sonho,
Que affaga a mente, rapido evapora-se…