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As biografias históricas de Santos Dumont

ção, sua maneira de ser, suas opiniões. Se algum jornal ou revista no Brasil foi entrevistá-lo para colher dados sobre sua vida e obra, ou confirmá-los, essa reportagem sumiu nos arquivos — sem que ninguém, já nos anos 1930 e 1940, tenha se lembrado dela. Era o tempo em que havia a oportunidade de fazer contato com gente da convivência do aviador, seus amigos, parentes, conhecidos e contemporâneos, que ainda estavam vivos.

O descaso por essa oportunidade explica a abundância de lacunas, imprecisões e inconsistências que se encontram nas biografias. Por exemplo, ninguém procurou saber quem foi Chapin, o principal mecânico de Dumont; quando nasceu, como se destacou em mecânica (que significava habilidades em uma atividade de muita avançada tecnologia), como conheceu Alberto, como era a convivência. Ninguém procurou conhecer de perto o caricaturista Sem. Ele pode ter sido o grande orientador de Alberto na questão de imagem e de relações com a imprensa — possivelmente o responsável pela "estratégia midiática" de Alberto.

Ninguém procurou o professor Garcia, que teria dado aulas particulares ao jovem Alberto nos seus primeiros anos em Paris. A falta de informações sobre a infância e juventude de Santos Dumont é surpreendente, considerando-se que sua família era grande (7 irmãos, dezenas de primos e sobrinhos); e que ele, sendo quase o caçula, pôde ser observado pelos mais velhos. O aeronauta teve também muitos contemporâneos que o observaram na Europa e no Brasil, uma vez que era um homem famoso e intensamente admirado.

As biografias clássicas, surgidas a partir de 1935, parecem ter sido motivadas pela morte de Santos Dumont em 1932. Contudo, a súbita motivação nem sempre deu uma nova perspectiva. Muito naqueles textos tem o propósito de idealizar e enaltecer Santos Dumont, recusando-se a apresentá-lo como uma pessoa com defeitos e fraquezas. Somente quando ele deixou de ser gênio, no estágio da vida depois que abandonou a aeronáutica, aquelas biografias que escolhem contar esse período se permitiram apresentar um pouco da fragilidade humana que ele tinha. Assim, não admira que as biografias tendam mais a construir um mito do que a buscar a vida de um homem real — que sempre é cheia de falhas, fraquezas e objetivos inacabados ou malsucedidos.

Dos autores iniciais, foi Gondin da Fonseca (1940, 1956) quem fez a pesquisa mais exaustiva; foi praticamente o único que conversou com amigos de Dumont (1956, p. 8-9) e parece ter realmente obtido deles alguma informação. Foi o primeiro a dar indicações de ter folheado coleções de jornais velhos e procurado livros velhos franceses. Naturalmente, contudo, abordou apenas pequena parcela das fontes existentes. E, infelizmente, escreveu um livro para o grande público; assim, não se preocupou em registrar a conexão entre fontes e informações fornecidas, bem como a época em que elas foram obtidas, e demais dados que ajudariam aos pesquisadores posteriores esti-

scientiæ studia, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 687-705, 2013

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