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4. arg., tirado do accordo, neste particular, entre todos os povos.

A convicção que o homem é livre é universal no mundo, como segue das ideas de virtude, lei, justiça etc. que em todas as linguas têm palavras e em toda parte vigoram. Esta universalidade extende-se aos proprios deterministas que muitas vezes na vida practica revelam opiniões contrarias ás suas theorias.

Ora esta convicção não pode ser enganadora porque (a) seu objecto é um facto de observação directa pela consciencia intima; (b) é tão clara e firme que não ha outra mais firme; (c) nella se baseia a ordem moral que não pode ser fundamentada em erro.

 

III OS ARGUMENTOS DOS DETERMINISTAS

 

1. O acto volitivo não determinado seria um effeito sem causa. Resp.: A causa determinante não falta: é a vontade que se determina a si mesma. Nem os motivos, que influem, são sem força, mas a força delles não é irresistivel, elles não determinam.

2. A consciencia de sermos livres não passa de uma illusão, proveniente da nossa ignorancia do processo volitivo. Resp.: A ignorancia é apenas uma negação, percebemos, porem, no acto livre uma faculdade real e verdadeira. Alem disso a ignorancia não podia ser causa de uma illusão tão geral e tão arraigada.

3. Pessoas hypnotisadas, sem terem livre arbitrio, têm a consciencia de o terem. Por conseguinte esta consciencia não prova nada.

Resp.: 1. O estado anormal, mysterioso e escuro da hypnose não pode nada contra a evidencia palpavel que o genero humano tem neste ponto.

2. Para esta objecção valer alguma cousa seria necessario verificarem-se na hypnose as tres condições seguintes: o hypnotico deveria ficar com o uso normal das suas faculdades reflectivas; o poder da suggestão deveria ser irresistivel; o hypnotico deveria ter consciencia clara do livre arbitrio. Ora o estado psychologico do hypnotizado não é normal; autoridades competentes (Delboeuf, cf. tambem Dr. Milne Bramwell) opinam contra a irresistibilidade da suggestão; a propria consciencia dos suggestionados ainda não está bastante estudada.

4. A Previdencia divina parece incompativel com o livre arbitrio porque, quando Deus prevê um acto, este ha de realizar-se com necessidade. Resp.: O acto não se ha de realizar porque Deus o prevê, mas Deus o prevê porque a creatura o realizará e o realizará livremente.

5. Se uma pedra que cahe tivesse consciencia, julgaria cahir livremente. Resp.: A supposição, alem de não provada, é absurda. A pedra não podia formar tal juizo.

6. Muitas vezes podemos prevêr as acções dos outros; ora esta

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