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flexão esta que cresce com a importancia das acções. Ora em seres determinados esta reflexão não se explicaria.

O sentimento da culpa seria um contrasenso sem o livre arbitrio. Não temos remorsos depois de acções não livres, depois de uma queda, doença etc.

Resoluções para o futuro são actos pelos quaes a vontade se determina a si mesma (definição do livre arbitrio!). A propria consciencia da conveniencia de uma resolução prova que sem ella não sou determinado, e que com ella me determino a mim mesmo.

Distinguimos tão claramente os actos livres e necessarios que facilmente os podemos comparar entre si.

Ora em factos internos de observação tão facil e tão immediata a consciencia não se pode enganar.

2. arg., tirado da natureza da intelligencia.

A intelligencia propõe á vontade (sempre que não se trata do bem infinito), bens limitados, indifferentes, desnecessarios. Ora um bem reconhecido como desnecessario não pode determinar a vontade com necessidade. Logo perante estes bens a vontade fica livre de se determinar a si mesma.

Ao animal falta esta liberdade, porque o animal tem só impressões sensitivas, não passa a formar idea sobre o valor dos objectos e segue, por isso, o impulso mais forte.

A intelligencia propõe os objectos como bens limitados porque forma a idea abstracta do bem, do bem absoluto, e comparados com esta idea os bens reaes não deixam de ser limitados e imperfeitos.

O homem escolhe sempre o bem maior? Não. (a) A consciencia attesta claramente o contrario. Video meliora proboque, deteriora sequor. (b) Muitas vezes, até, os bens propostos são de ordens tão differentes que nem admittem comparação. (c) A propria violencia que o homem, ás vezes, deve fazer a si mesmo para proseguir o bem moral prova que este bem não o determina. (d) Se em face de um bem tenho a liberdade de renunciar, tenho pelo facto mesmo a liberdade de escolher um outro mais pequeno.

3. arg., tirado da necessidade da moral.

O determinismo acaba com a moralidade entre os homens, por conseguinte não pode ser doutrina verdadeira. Com effeito, sem livre arbitrio não ha deliberação, nem exhortação, nem lei, nem castigo, nem louvor, nem imputabilidade, nem prudencia etc. etc.

Dizem os deterministas que no seu systema premios, leis, castigos, louvores não se dispensam, por serem necessarios para determinar o homem para o bem. Resp. Já não seriam leis etc., mas, sim, meros actos de amestração, deixando toda liberdade aos instinctos baixos, livrando o homem da responsabilidade de seus actos: a negação da moral.

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