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não vedes, que murici
sou desses olhos timbó
amante mais que um cipó
desprezado Inhapupê,
pois se eu fora Zabelê
vos mandara um Miraró. (MATOS, 1999, p. 863-864)

Esse poema serve para observarmos a linguagem antropofágica de devoração presente nos versos. O poema traz elementos (vocábulos) que nos remetem especialmente à linguagem indígena, do ameríndio. A devoração, nesses versos, está associada à assimilação dos valores culturais dos índios, uma vez que Gregório de Matos se alimenta da cultura indígena, praticando a mestiçagem textual, isto é, promovendo um caldeamento tropical.

Segundo Haroldo de Campos (2010, p. 209) Gregório tem o “mesmo hibridismo que se encontra no nosso barroco plástico”. Essa mistura dos vocábulos portugueses e tupis é a representação da antropofagia oswaldiana, no sentido de que há uma amalgamação, uma miscigenação entre as línguas, que nem é mais portuguesa nem tupi-guarani, por isso, Evando Nascimento (2011, p. 331) afirma que “a devoração real ou metafórica acarreta a morte do outro”. Nesse sentido, devorar aqui é sinônimo de destruir, mas uma destruição que é também reconstrução, pois o sujeito devorado agora faz parte do corpo do que devorou, como na Eucaristia, em que o corpo de Cristo é transubstanciado a fim de ser vida no corpo dos fiéis.

Assim como o rito antropofágico, Gregório também é seletivo, e como poeta ele sabe que termos escolher, que expressões usar. Evando Nascimento (2011, p. 338) ainda considera sobre o processo de devoração antropofágica: “o que nos identifica é o selo da deglutição do outro civilizado”, lembrando a data da morte do bispo Sardinha pelos canibais brasileiros. Sob este aspecto, o poeta Gregório de Matos é quem primeiro promove em solo brasileiro a absorção dos valores do outro, não sem razão foi considerado o primeiro antropófago.

O ritual antropofágico

O ritual antropofágico, num ato desmedido de devoração, instaura no cenário brasileiro o resgate daquilo que formaria nossa identidade como povo, como gente. Gregório é o príncipe que retoma seu trono perdido no século XVII e renova as forças desmistificantes do substrato apoteótico da palavra, ele é a parte perdida do todo que foi achada pelo século XX.

O objetivo da antropofagia rezado por Oswald de Andrade era “resgatar os valores nacionais para divulgá-los em todo o mundo, fazendo com que o europeu aceitasse a cultura estrangeira não apenas pela perspectiva excêntrica, mas pelos critérios da diferença e da autenticidade” (BITARÃES NETTO, 2004, p. 63) e Gregório foi o porta-bandeira desse pensamento, o

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Anu. Lit., Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 46-57, 2016. ISSNe 2175-7917